quarta-feira, abril 05, 2017

Flor intermediária (miniconto)




por Rafael Belo

Lá estava ela na mesma cela. Não tinha vitória nem escapatória. A cela era ela. É ela foragida, escondida nas próprias folhagens... Presa em si mesma, flor intermediária. Nem brota nem morre. Ainda assim é bela. Flor de Liz Maria não resseca, mas é metade de si porque é completa sem saber. Soube ser corpo, outras flores, outros corpos e matérias. Agora é aquela com outras flores em si, outros brotos, mas todos ela. Estava toda empoderada, mas a sociedade canalha veio machista e abusou dela. Liz fechou portas e janelas: não aguentava. Desesperada pegou a arma, vestiu a mortalha quando a malha da escuridão enlutou seu coração e nublou sua mente.

Ela matou e matou e matou... Mais uma vez morreu! Sentiu a serpente drenar seu sangue e injetar a peçonha direto nas veias. Estava fria. Estava morta. Logo ela, na cela... Não era mais a mais nova juíza. A nova Dama de Ferro executora fora executada por um bando de gralhas, abusando dela fora dos tribunais. As famílias dos marginais, pais... Queriam olho por olho, ficaram cegos e no fim mataram a alma de Liz... Ela nunca quis fazer nada além da Justiça. De realizada a vazia. De exemplo de justiça a justiceira aprisionada, mas estava mesmo toda acorrentada em um abismo.

Hipócritas, consolavam com preciosismos, otimismos... Nada adiantava. Usaram da força física para a fazerem se sentir um nada. Abusada, violentada de todas as formas... Seus colegas de toga só chegavam até sua porta para atacá-la, arrombavam toda aquela força, mas fisicamente não adiantava... Ela atrapalhava os esquemas, cada novo estratagema era uma nova gema separada da clara. Um atrás do outro, nenhum escândalo parava. Mas, apesar da vaidade, sua qualidade reinava, imperava sua jornada paladina Deusa Thémis. O povo já idolatrava, colegas corrompidos e políticos a odiavam. Ela estava limpando o Brasil. Liz não imaginava como estava o fim do túnel.


Depois de óbvias palavras clichês focando as emoções de marginais e ladrões, a população se converteu. Quem antes abusava, roubava, agora era vítima e a deusa virou diaba. Mesmo assim, ela se sentia imaculada e seguia com a própria jornada, caminhava a estrada escolhida... Não esperava ser esfaqueada na surdina, ter sua cabeça prometida e pendurada e toda a opinião sobre si manipulada. Chegou a sua cela, apenas quando a ideia medieval de violação da alma, invasão da psiquê rompeu quem era ela. Ela matou e matou e matou... Depois morreu de novo. No fundo das suas folhagens ainda é possível ver a imagem misturada de quem foi, mas ela nem se pergunta isso. Ele pensa maior, não pensa só. Ela escreve por toda cela dela: quem somos nós?

Um comentário:

Maria Belo disse...

Muito bom! Somos pessoas que lutam pra sobreviver! E o tempo todo nosso tapete sendo puxado! Temos que reagir de verdade!