sexta-feira, novembro 20, 2015

Culpado sem culpa (miniconto)

Lucius estava inconsciente mais ouvia tudo. Estava em coma induzido há dias. Tentava dizer algo, mexer qualquer coisa sem conseguir. O corpo não obedecia. Como clichê de filme norte-americano as pessoas insistiam em lhe contar os mais absurdos segredos, diziam o quanto o amavam, tanta falta fazia, porém Lucius nunca teve certeza se havia realmente este tal de amor, aquela palavra sentimento.
"Ou vim com defeito ou todos são tolos, afinal... Por que vou querer atenção, alguém querendo saber tudo de mim, meus afazeres e pior os meus pensamentos?! Não! Afastem-se! Sumam daqui. Não, não, não, esperem... Ainda não sei como sobrevivi... Não sinto nenhuma maldita dor, então terminem com isto logo. Calem a boca! Deixem-me em paz uma vez pelo menos."
"Planejei direito desta vez. Era para eu estar em milhares de pedacinhos indo direto para o nada, para o zero absoluto, mas, mas, mas... AAAaaaa... Não funcionou e além de não entender porquê ainda estou preso obrigado a receber carinho e atenção. Então, realmente, há castigo pelos maus pensamentos, pelas más intenções... Só queria saber quem elabora tais punições. Não, não, não... Quero não."
"Eu não devia ter me afastado da bomba... Para onde foram as milhares de pessoas que estavam lá? Por que eu não morri?" Com os olhos estatelados, Lucius assistiu a reportagem onde um grupo de terroristas assumia a responsabilidade do que não havia acontecido e só então percebeu ter aberto os olhos. Estava só no quarto. Conseguiu mexer um pouco a cabeça. Não restava muito de seu corpo afinal. Foi tudo que viu porque logo sentiu uma dor insuportável e tudo foi escuridão. O sol ia se por e a noite não teria brilho nenhum - sem estrelas e luar.

Um comentário:

Maria Belo disse...

"O sol ia se.por e a noite não teria brilho nenhum" fantástico! Parabéns!