segunda-feira, novembro 09, 2015

Testemunhas


Na fila do mercado, dois dias antes de Finados, fui reparando, enquanto esperava, na quantidade de flores compradas. Quanto mais avançada a idade o número de vasos floridos aumentava. Na minha frente um casal de idosos, com mais de 70, empurrava dois carrinhos: um com compras e outro só com homenagens aos seus mortos.

Eram mais de 20 flores. Um recorde pelo que meus olhos diziam. Ao redor não via ninguém com mais de cinco, mas para isto era praticamente uma afirmação dizer: seria comprado no dia e, provavelmente, em frente ou no caminho do destino final. Nos idosos havia todo tipo de resistência, vitórias, e claro, longevidade como verdadeiras testemunhas das mudanças do tempo.

Estava em um fila educada e ninguém reclamava da velocidade das coisas e, afinal, nunca será encontrada uma fila ao gosto do freguês. Este sempre acha que poderia ser mais rápido por mais que o próximo compromisso seja nenhum. Eu pensei assim quando vi o casal já passando as compras, mas “minha” fila era gentil também e atendemos o pedido de um rapaz com uma coca de 3 litros em mãos: posso passar rapidinho?!

Enfim, tinha me esquecido da data até ver os idosos e me questionar o motivo do segundo carrinho. Nunca fui a um cemitério sozinho... Sempre há todos os tipos de flores, principalmente secas e morrendo na mesma proporção que são trocadas e a quantidade de flores de plástico... Só esta imagem diz tudo... Mas esta data é memória para refletirmos sobre a vida de quem foi e na nossa vida. O que ficou de quem morreu?

Ver aqueles idosos com tantas flores me trouxe lembranças dos meus mortos amados - e dos queridos também - e de como eles, o experiente casal, respeitavam a memória de quem se foi. Será que recebiam o mesmo respeito de outras pessoas no cotidiano deles? Com mais de sete décadas de vida com certeza eles começaram a peregrinação naquele mesmo dia e eu - dois dias depois e diariamente antes de dormir – dediquei (dedico) minhas orações, pensamentos e sorrisos a todos àqueles que se foram, mas com certeza, nos ensinaram algo e deixaram muito deles mesmos.

Um comentário:

Maria Belo disse...

Muito verdadeiro! Quero flores em vida!