segunda-feira, março 20, 2017

Autoabusivos






por Rafael Belo

Os laços estão guardados, protegidos de qualquer enlaçamento, ou melhor, envolvimento. Não queremos nos envolver e criamos mecanismos mentais, corporais e sentimentais para evitar “sofrer”, quer dizer, viver. Nunca estaremos prontos se assim pensarmos. Queremos nos defender de nós mesmos e não do outro e colocamos em mente termos o tempo todo do mundo. Não é verdade. Temos somente o agora. O momento de autoajuda escapando efusivamente das nossas mãos. É pura ilusão achar no passar do tempo uma cura. A cura para nós somos nós e a doença também.

Mas, é preciso resolver como lidamos com a situação. Precisamos de tempo e luto. Enfiar a cabeça no escuro e evitar o acontecimento das possibilidades só nos deixa no mesmo lugar. Não há regra para avançar, parar e recuar para enxergar melhor, para sentir com confiança e pensar com clareza. Vamos lá e tentamos uma vez, falhamos. Começamos a segunda tentativa para não conseguirmos mais uma vez. A terceira pode seguir os padrões, porém quem define os padrões não somos nós? Quem estica as noções de certo e errado? Somos tão clichês como sempre fomos... A única diferença é a roupa, às vezes nem isso...

Apegamos-nos ao nosso eu passado, morto, talvez por isso adquirimos um gosto tão especial por filme de zumbis... Chame Yung, Freud, nossos pais... O figurinista não vai resolver se ainda usamos as mesmas roupas e chamamos de vintage, se relacionamentos chegam ao fim e o nomeamos erros, se usamos um quantidade incontável de “ses” para decidirmos não decidir porque é mais seguro não se envolver. Seguir os impulsos e não pensar é um movimento libertador surpreendente matando nosso tempo particular fingindo um parar repentino deste quando quem para somos nós. Por que estamos presos neste ciclo falso de “é melhor esperar”?


Quando vamos estar prontos? Vivemos um relacionamento abusivo com nós mesmos nos privando das nossas responsabilidades de procurar a felicidade. Fragmentamo-nos em tantas rachaduras no espelho só para juntar tudo, grudar com fita adesiva, unir com cola quente, colar com superbonde, apenas encaixar como se ainda fôssemos os mesmos e no final nos dividimos. Estamos divididos em trincheiras de uma guerra desnecessária travada com nossos pensamentos, nossos sentimentos, nossas vontades e nossas necessidades. Lutar tantas guerras simultaneamente desgasta nosso resgate deste naufrágio no qual insistimos em nos afogar. Para andarmos sobre as águas precisamos nos envolver com cada parte de nós, assim acabamos com a guerra e bem conosco nos envolvemos bem com o mundo.

Um comentário:

Maria Belo disse...

"Quando vamos estar prontos?"