sexta-feira, novembro 13, 2015

Previsões (miniconto)


Maria caminha. Ia olhando para cima involuntariamente e da mesma maneira involuntária as pessoas desatentas desviavam dela sem a ver ou ter esta função no cotidiano automático paulistano. É, nem tudo se explica porque a explicação, às vezes, só tem a função de acabar com a magia das coisas, da vida. Talvez fosse este o pensamento de Maria e lá ia ela.

Disse-me nem perceber sua repentina obsessão pelo céu, pelas nuvens, me disse querer enxergar as estrelas de dia. Pensei: Ah, Maria. Poluição, sol, meio-dia, não querida, não verá nada não. Por isso, sorri quando a ouvi, mas ela imaginou ser outro o motivo do meu sorriso. Percebi – antes de me aproximar – que até os ladrões a evitavam.

É... Loucura, pensavam e se afastavam depressa. Maria me disse se imaginar centenária e até mais. – Mais de 100?!, perguntei surpreso e dizendo não me imaginar planejando nada, indo adiante, mas sim via meus sonhos se realizando, dando entrevista para o Jô, aliás até sonhava tal alegria algumas vezes...

Interrompendo meu ego, Maria voltava com a mania de se perder olhando para cima e envelhecia com a mesma idade. Dizia, que no futuro cada idoso teria até a sexta idade, mas provavelmente o desrespeito – infelizmente – até pioraria, então queria envelhecer agora porque amanhã o tempo passaria, mas o corpo pararia aos 25 e ninguém mais perceberia a vida como ela é: mais bela porque havia a morte para a enaltecer.

Um comentário:

Maria Belo disse...

"As vezes,a explicação pode acabar com a magia das coisas"! Perfeito,lindo.