domingo, julho 31, 2016

Trazer de volta (resenha)


Se detalhes podem fazer toda a diferença, imagina a essência toda morrendo. Quando a fé é testada no representante dela precisando superar um acidente horrível, a vida inteira muda atingindo a comunidade de uma maneira possível apenas na narrativa de Stephen King. Mais uma vez este mestre consegue me levar do início ao fim do livro me enchendo de expectativas e mostrando novamente o motivo de King ser o rei de qualquer gênero que decida se dedicar.

Revival já traz na capa o mistério, a força da natureza e um quê de Frankenstein capaz de mudar nossas perspectivas sobre as formas de viver. A história kingana nos carrega a um mergulho profundo na vida de dois personagens cheios de reviravoltas, repletos de possibilidades e marcados de formas diferentes até o fim da vida. Passear por tantos detalhes de universos diversos é o melhor de King ainda se divertindo com cada palavra que escreve e assim continua a nos surpreender.

A ciência substituindo a fé, amenizando os males, tentando reverter a dor e reviver a felicidade deturpando totalmente uma em nome da outra, em nome de um tipo de loucura em constante teste vemos uma moeda jogada para cima tantas vezes a ponto de virar um dado de doze lados em cada momento. Este dodecaedro vai se dobrando em si mesmo constantemente até perdermos o fôlego. Mergulhados, vamos mudando de lado sem perceber o quando afogados já estamos na história.

Crer em tantas coisas sem se dar conta da origem e a forma terem sido a mesma, pode dar um tipo de poder onde a manipulação da fé leva as pessoas ao irracional, ao impensável e até a perder a fé. Os mistérios da vida são tratados com tanta simplicidade neste livro que já é um clássico para mim. Há um segredo que nos prende até o fim. Uma fatalidade, uma levada para o lado pessoal, adaptação, genialidade, loucura, cobaias da vida, todos os meios para um fim. Mesmo sem qualquer conforto existe alguma coisa e a morte ronda o tempo todo porque algumas portas devem permanecer fechadas... Há algo sempre a espreita arrepiando nossa pele a permitindo enxergar as consequências da ação porque toda ação tem conseqüências e reação é a lei mais dura do mundo.
*
Este é daqueles livros que você quer saber o fim, mas não quer que acabe! Está esperando o quê para começar a ler agora mesmo? VÁ!

Stephen King, Revival, 2014, Suma de Letras. Ficção americana. Tradução: Michel Teixeira em 376 pag.

sexta-feira, julho 29, 2016

Guardião da noite (miniconto)


Não e preocupe Não se preocupe Não se preocupe. NÂO! SE! PREOCUPE!  Não adianta! Estou preocupada. Ficar repetindo só prova isso. Com certeza ele vai perceber. Não controlo a respiração, não controlo meus batimentos... Não controlo mais nada! Droga! De onde eles tiraram estas lanternas. Eles? Droga droga droga... Como vim parar aqui? Claro, claro... Um único deslize e a mulher não presta enquanto meu marido... Ah, meu marido só não aguentou a neurótica aqui. Neurótica? Preciso sofrer calada ou sou histérica? Não posso me vingar porque estou na TPM... Não... Foi por pouco e ainda pisou no meu pé, maldito!!

Ele está voltando... Prende a respiração prende a respiração prende... UFA! Preciso me acalmar. Não gosto de ninguém me dizendo isso e agora vou dizer? Lembra lembra lembra.... Estava só tomando refrigerante e provando ainda ter muita gente interessada em mim, mas isso não explica porque ainda estou grogue... É estou grogue. Como não percebi antes?! Com esta escuridão também  como poderia ter percebido. Queria poder desistir, matar este meu instinto de sobrevivência...

Corre corre corre. Não vou olhar para trás. Não vou! Eles estão atirando. Nossa! Essas luzes... Parecem o fim do turno, de vários túneis na verdade. Isso só pode significar uma coisa... Quanta barulheira! Podiam usar silenciadores. Ai! Ai! AIIII! Queimaaaa! Espero ter sido só um tiro. Tomara! Meu Deus, tomara! Tomara. Isto está parecendo um filme bem ruim. A gente assiste só para ver se melhora, mas não... É a esperança acabou! Cadê este chão? Não chega nunca... Aiiiii! Pronto...!

Vou morrer agora e ainda vai pairar a maldita dúvida se eu não provoquei. Quem diz pairar? Eu não queria trair ninguém... Mas ... Lembrei! A raiva era tanta, mas tanta... Ah, seu eu tivesse uma arma seria a vadia louca ou a vaca calculista? É um miado? Será que eu consigo mexer a... Olha é mesmo um gato. Por que deitou e está me encarando? Ei, eu li em algum lugar... Gatos curam é isso. Não ouço mais nada. Será?  Eles foram embora... Ressuscita esperança. Será que eu morri?


- Kiri kiri kiri kiri kiri. Gatinho! Psiiiii, psiiiii psiiii! Você já está me olhando... Então, me cura! Cura meu coração, minha alma e se der a ferida também ou simplesmente leva minha alma daqui, antes que termine de amanhecer.

quinta-feira, julho 28, 2016

Termina o dia



nos dilatados olhos tudo está embaçado
desfocado no não pensar embaralhado
enfileirado em algum lugar tão intocado
bem distante do querer ir se acorrentar

abortos da falta de ar responsabilizando o corpo por não se entregar

morrem as borboletas no estomago acaba a adrenalina em sono
todo rasgado pano vira cama de cão tecido de chão e lá se acumulam senãos
fingindo ser senões nas insinuações dos últimos serem os verdadeiros primeiros
vagarosamente volta visão torta simulando ser Torre de Pisa

cisma a maioria  da vibrações pela pele permitida distraída no chuveiro
refresca um possível Eureka até o banheiro ser vapor
tentações estouram a lâmpada antes do sol terminar de se impor.


(Rafael Belo, às 00h23, quinta-feira, 28 de julho de 2016).

quarta-feira, julho 27, 2016

Pensando bem (miniconto)


Estrela tentava lembrar-se daquele sentimento francês... Sabe? Aquele cuja sensação é de um já visto, de “isso não me é estranho”, “é já fiz isso”... Por isso, mordia os lábios revezando em cima em baixo, mordiscava e fazia um malabarismo particular para todos os lados com a boca, insistindo em suspirar no meio de tudo isso. Mas, ela sabia que aquele... Aqueleee... ISSO! Aquele tal de déjà vu estava acontecendo. Não. Ela não acreditava nisso. Eram apenas as pessoas sendo os animais diários que são.

Onde está minha aliança?, pensava ela enquanto apalpava todos os bolsos e lugares possíveis de guardá-la. Eu sabia. Não posso ser simpática, olhar nem conversar... Sem fazer isso esses homens - Bom, e outras mulheres também - já ficam “se jogando” para cima de mim. Nada intimida estas pessoas, Meu Deus? Não posso ser quem sou nem escolher minhas roupas? Claro que posso, as pessoas tem que me respeitar e...

Eram estas as distrações de Estrela enquanto corria na esteira com um incrível equilíbrio e sequências recordistas de Snaps por minuto. Às vezes pensava nas garotas mais jovens por ali, media com o olhar e sentia o mesmo acontecer, então desviava a atenção para um rapaz ou outro tentando se exibir e, por poucos instantes, começava a se perguntar se não deveria ser solteira. Era uma vontade passageira e passava como um susto.

Sou jovem para ser velha e velha para ser jovem... Não, não, não, não, não... Não acredito que citei Sandy. Pensando em outra coisa, pensando em outra coisa... Isso... Não quero passar por todas as etapas até o casamento de novo, mas mesmo se fosse solteira e namorasse não iria estourar corações com traição...  Acredito ser como estourar os miolos e sobreviver sem boa parte do cérebro e ainda com a bala alojada bem no lugar que nos avisa da dor e das... Sensações!


É, devemos realmente ter uma bala na cabeça nos impedindo de raciocinar e sentir profundamente, então Estrela balançou a cabeça como quem chega a uma conclusão genial e sorriu antes de pegar a mochila, as chaves do carro e ir para casa deixando o rapaz, que olhou há um minuto, acreditando ter “uma chance agora” na certeza daquele sorriso ter sido só para ele.

terça-feira, julho 26, 2016

dilatados


Empoeirado cérebro sem mérito do rumo tomado
goles brutos escorrendo com incalável boca
solidões carentes do desespero indomado

Se vão as rédeas rentes tementes às tensões soltas
tudo é permitido nos impulsos deitados dos pecados
ditados em braile no contorno das peles sem roupas

poupas tua língua de queimar aos lábios molhar?

a fogueira estrala sem sentirmos a rasa vala louca
nos prendendo no labirinto imoral marcado
parado do lado avesso do abismo onde o coração traído estoura.


(Rafael Belo, às 20h33, segunda-feira, 25 de julho de 2016)

segunda-feira, julho 25, 2016

Meros animais guiados pelo instinto

Fico olhando futuros possíveis, mas só consigo imaginar o agora. Não consigo me ausentar. Podemos ver a solidão no ar, sentir, tocar e conversar com ela, porém, esta é mutante e em um instante perdido se transforma em carência. Essa dupla está no nosso desespero de formar casais, de ser um casal, de saciar o desejo em nós ou simplesmente disfarçar, nos misturar... Então, vamos cegos chamando um beijo de amor, prolongando coisas passageiras e pessoas de passagem. Vemos possibilidades em tudo, poucos respeitam a escolha feita por si mesmo e têm certeza da escolha errada do outro.

Não sei como agem todos porque ver não é saber e julgar é tão superficial quanto à poeira cerebral acumulada por nós. A não ser se a palavra é comprometimento. Se me comprometo com algo, com alguém, não há troca. Não é motivo trocar porque houve brigas, discordância, discussão... Ninguém mais corrige, conserta e perdoa? Não desistimos sem lutar, sem utilizar todo o possível, sem gastar cada pedacinho da nossa imaginação. Caso seja necessário seguir em frente precisamos terminar com detalhe por detalhe e, aí, só, então, não será desistência.

Sabemos os limites a nos separar de algo a mais com qualquer pessoa e só ultrapassamos porque queremos. Não negue. Como podemos negar o óbvio?! Sair sozinho não significa estar sozinho e muito menos estar à procura de alguém. Podemos nos divertir sozinhos, com nossos amigos, com nossa família, afinal sabemos nossos limites. No entanto, queremos bancar sedutores incorrigíveis, eternos insatisfeitos e flertarmos pela aventura, pelo só “para garantir”...

Ótimo! Somos covardes querendo acreditar estarmos sempre disponíveis. Pisamos no Amor, no Amar, no coração por falta de coragem... Não me venha com o “eu tenho medo de...” porque este temor é necessário para nos mantermos vivos, para fazermos mais do sermos meros animais guiados pelo instinto. Este instinto de comer, dormir e se saciar... Não pode bastar! Isto é trair antes do outro, o reflexo quando você olha sozinho para o espelho. Ser egoísta e traição são sinônimos levando a diversas formas de extinção. Só para ficar claro, além das nossas partes sexuais temos coração, alma e cérebro... Só precisamos ser e raciocinar!


domingo, julho 24, 2016

Impossivelmente branco (resenha)

Depois de seis tortuosos meses sem escrever neste meu reflexo, posso agradecer por finalmente voltar.


Quando vi aquele livro com capa branca, tons de azul e cinza nos destaques vermelhos nas formas de uma raposa, uma luva e um cachecol sabia que havia algo naquela história impressionante. E foi assim do início ao fim. A menina de neve é cativante e transportador. Nos  leva a um Alasca onde jamais pensamos em viver. Repleto de belezas naturais, nos faz pensar que moramos em um dos lugares mais frios do planeta.

Estamos lá tocando a neve congelando e derretendo. Compartilhamos a dor, a solidão e a alegria de Mabel e Jack depois de Faina. Um lugar novo e totalmente diferente para o casal distante da família e ainda pensando no motivo de não terem filhos. Personagens acolhedores nos fazendo sorrir e pensar na possibilidade dos milagres acontecerem quando nos permitimos enxergar e conhecer o impossível.

No remoto extremo do mundo conhecemos George e Esther e seus filhos. Mas e Garrett que passa mais tempo com nosso fantasma ser mágico lendário: uma menina? O que é real? O que é delírio? O que é mentira? Existe o sobrenatural ou a fé é capaz de tudo? Se deixe levar por todas as sensações despertadas por esta obra capaz de nos fazer mergulhar e respirar debaixo da água, ou melhor, soterrados em neve.

Aproveite que já sonhou com neve, bonecos de neve, brincar de atirar bolas de neve e leia agora. Garanto que seu pensamento sobre o frio jamais será o mesmo. Vá agora que a finalista do prêmio Pulitzer, Eowyn Ivey vai te fazer sentir criança nesta obra de 351 pág e tradução de Paulo Polzonoff Junior com o casal de 50 anos lutando pra sobreviver em um Alasca de 1920 sem nenhuma experiência com o que se propõe a viver.
*

Ribeirão Preto,SP. Editora Novo Conceito. 2015. Ficção norte-americana

terça-feira, janeiro 05, 2016

brinquedo real


Entre os dedos as próprias asas
escravas de correntes fantasmas
constroem ventos dos movimentos
estes que não fazem e mesmo assim voam

deixando sua poeira luminosa farfalhar
com seu rastro em camadas pelo ar

forjada frágil flexibilidade ecoa mares revoam
chuva de rostos entoam um canto
apanhando borboletas fazendo um manto
para caminhar na inexplorada floresta

onde nos resta lembrar
do que são feitas nossas asas
e voar sem medo antes mesmo de nos soltar.

(às 10h33, Rafael Belo, terça, 5 de janeiro de 2016)

segunda-feira, janeiro 04, 2016

Do que são feitas as asas das borboletas?


Os passarinhos te observam de longe ariscos e prontos para protegerem as asas. Esta é a liberdade rimando com verdade. Eles esperam você estar a uma distância segura para agirem e enquanto não fizermos parte do lugar, formos mais uma cor na vegetação, seguem da mesma forma. É natural. Quando estamos sós não nos sentimos mais livres? Ao tirarmos as restrições, cobranças, o inútil sentimento de posse e estarmos bem com quem somos nos sentiremos com quem amamos também.

Somos condicionados a sempre colocar e não tirar. Ao menos não tirar de verdade... Tirar aquela imensidão de roupas que passam meses esquecidas em algum canto do guarda-roupa e alegamos afeição por elas, tirar aquele alimento que nos faz mal e o acusamos de ser gostoso, retirar aquela palavra que ofende e insistimos não ter outro jeito, além de outros detalhes responsáveis pela vida... Para tanto precisamos limpar a poeira do músculo responsável pelos músculos: o cérebro.

Pensar e esvaziar a mente são dois atos humanos a nos humanizar quase na mesma medida de um sincero sorriso e daquela chuva necessária depois de um longo período de seca. A liberdade obtida ao compreender estas necessidades do corpo, da alma, do coração e da mente é o caminho para tirarmos as correntes que colocamos nos nossos pulsos e tornozelos. Mas quando soubermos do que são feitas as nossas asas nada nos prenderá porque uma mente limpa e consciente voa.


Nossas asas são forjadas de finas camadas responsáveis por nossas cores, proteção, pela ação da corrente de ar, nosso aquecimento e espalhar de calor. Assim, desengaiolados como a esperança solta neste 2016, podemos ser sinônimos do cheiro dos ventos dos morros, o frescor da mata selvagem, a invasão das flores e, portanto, das borboletas dos mais variados tamanhos, formas e cores com a possibilidade de registrar todos estes momentos e espalhar as sementes, os aromas e um pouco de nós, frágeis, resistentes e flexíveis, por isso somos mais borboletas que pássaros.

sexta-feira, janeiro 01, 2016

Eu Tempo (miniconto)



“O que aconteceu entre nós será notícia no primeiro dia do ano, o que veio antes e virá depois irá preencher o início do novo... Você é meu ano novo – sempre digo isso – e também minha virada”, ontem eu disse isso para a Força e pensava se o silencio era melhor diante da quantidade de palavras, ou melhor, sentimentos a dizer. A olhei nos olhos até tudo distorcer perante as lágrimas de entendimento escorrendo sobre meu sorriso bobo.

Bobo ou não era fácil ver que todos esperavam 2016 e há algumas horas este ano chegou mesmo com a cachorra olhando sem noção de ir ou voltar. Sexta-feira é um ótimo dia para chegar como quinta também o é para partir. Não sei se há forma ruim de ir embora ou chegar e por mais maltratado que 2015 tenha sido, acredito terem sido necessários de alguma forma o que se passou. Até os piores anos aconteceram e não foram todos eles eu?

Podem dizer - e o dizem – eu ter sido mal coletivamente e não tão bem individualmente, mas reclamar resolve? Tomar atitude não é remédio é ação. Movimento da mente e do corpo, mas olhe bem: tanta gente foi incrível e para tantos foi maravilhoso. Desde antes de eu começar a ser contado já dependia da forma de olhar, de se comportar, de dar o primeiro ou último passo... Só digo ser inútil me marcar com números e me guardar com as roupas limpas, pois eu serei um lençol branco, porém sujo, te assombrando.

Prometer ao seu suposto ano novo ser diferente do velho não só seria um despautério (ou besteira mesmo) como agir da mesma forma não, não, não, na na na na na não... Você será passado como eu sou fragmentado para todos terem referências ou o mais próximo de uma lembrança datada. “Enquanto tudo acontecia eu crescia sem saber ter que perceber, mas percebia não ser mais o mesmo e pela primeira vez me comparei com um rio...”, disse a Força certa vez.


Falar de movimento das horas... É falar de mim. É como a ladainha sempre feita e eu sou o culpado do início ao fim. Vocês dizem 2016 promete. Eu lembro que sempre dizem isso e mais recentemente 2015 também não prometia? Sou eu ambos os anos! Eu exijo que faça algo, mas não prometa e me use! Chega de me desperdiçar e ignorar e esperar algo de mim... Eu vou envelhecendo (admite envelhecer e reconhece?) não mudando de nome. Não venha me perdendo, me contendo ou me comendo, pois sou simplesmente o Tempo e não deixo de passar.

quinta-feira, dezembro 31, 2015

Distorções


Nunca fazia nada além de fantasia
vestia-se cuidadosamente para a sociedade
mesmo quando agia com sua casual identidade

a ilha surgia no meio de um continente
expressando solidões como se os outros fossem legiões

cada falange reagia como podia adiante
diante das sensações oprimidas das multidões
e era um só sem saber

bárbaras invasões eram eficientemente educadas para valer
na profecia direcionada macia
com a cortesia da vazia emoção da possessão
morria todo dia cheia de distorcida razão.


 (às 19h18, Rafael Belo, quinta, 31 de dezembro de 2015)

quarta-feira, dezembro 30, 2015

Deusa dos agradecimentos obrigatórios (miniconto)




Mais uma salva de palmas, reverências e com o corpo curvado – mesmo assim – o nariz seguia empinado. Os pensamentos, embora inebriados no momento, ainda eram egoístas, prepotentes, arrogantes de quem sempre merecia mais. Os olhos fechados se espremendo em cada respiração curta de momentânea satisfação. Mas, os olhos. Ah, aqueles olhos seriam vermelhos se os sentimentos tivessem cor.

Foi espetacular o espetáculo. Toda pompa e glória transmitida em mais um fim de ano, a bebedeira e aqueles showzinhos particulares que ninguém quer presenciar, mas acaba obrigado... Enfim, o único objetivo para Pietra Nature eram os aplausos, o reconhecimento, as palavras floreadas, recheadas de elogios, uma massagem diária no ego já inflado e alçador de voos. Qual outro motivo de ser atriz?

Não. Nesta noite já revirada, nesta transição marcada pela festa e pelo calendário o tempo seria diferente. Ela será forçada a parar de atuar. Esta noite ela deve revelar o desequilíbrio, a psicopatia... Nada de loucura... Ela planeja, calcula, elabora e tem total consciência de cada detalhe... Nem se quisesse os deixaria escapar. Ela é obcecada com a ideia de ser sempre ignorada por mais elevada que seja pelo público e pela crítica.

Eu a ouvi várias vezes para acreditar. Ah, como ela é boa, mas sei não saber quem ela é nem você nem ninguém. Sozinha no banheiro, provavelmente de frente a versão dela, ao reflexo no espelho de 2m por 2m, ela esbraveja coma inventora da razão, a deusa para quem todos devem orações, pedidos, agradecimentos e sacrifícios. Naquele banheiro os amigos dela não suportariam nem os pensamentos que ela revela.

Quando descobri queria acreditar ser mais um ensaio da minha mãe, mas raiva, o sentimento de injustiçada, desrespeitada.... Estes nunca dirigidos a ela estavam impregnados, envenenavam cada vogal, toda consoante daquela voz pontual que eu não tinha como dizer ser de outra pessoa. Todo dia o banheiro se fechava no mesmo horário com Pietra dentro, porém acaba agora.

Venham comigo! Vamos revelar... Todos somos assim: pedras atiradas em nós por nós mesmos. Espinhos e agulhas infiltrados delicadamente sob as nossas unhas diariamente... Uma construção inacabada de máscaras declarando: Cada roupa que vestia era uma fantasia. Ela mudava de comportamento, de sexo, de voz, de tom, de aparência... Por mais que acreditasse ser sozinha era uma legião quando projetava o olhar mortal sobre nossas costas frágeis, porém quando sorria era uma falange e até coro celeste era possível ouvir, mas vivia em dúvida e acabava multidão.


Todos pensam ser uma ilha convidando quem quer para entrar e vivemos lidando com uma contínua invasão esquecendo ser isto denominação de arquipélago com problemas de identidade e localização como toda sociedade, mas como minha mãe somos péssimos alunos quando se trata de nós mesmos.

terça-feira, dezembro 29, 2015

Esfregando as têmporas


Um formigamento na mão a dormência
gaiolas abertas em todas as direções aparências

dentro dos olhos solidão
arrastando comunidades a garotos perdidos
idos das oportunidades vindos das identidades
do adjetivo da ilusão
extremos doentes dos desequilíbrios

sorrisos dementes na quebrada balança
esperança fantasiada de egoísmo
maquiado olhar aberto colorido
tingido pela fuligem da poluição

da janela fechada
a fachada vai antiga
fingida ao ter o que respirar
atingida pela ficção moderna

são insanos sãos
batendo a cabeça no escuro
dizendo extremos exageros absurdos
criando a particular solitária plateia.


(às 18h57, Rafael Belo, segunda, 28 de dezembro de 2015)

segunda-feira, dezembro 28, 2015

Engaiolados pássaros


A São Silvestre chega correndo para corrermos atrás dos nossos sonhos, mas nós os temos? Às vezes corremos até o esbranquiçar dos nossos pelos e cabelos - ou até que caiam - para percebermos que não era o sonho, não o nosso, aliás olhando para tantas pessoas com o mínimo de atenção, apenas sobreviver pela próxima hora já é um sonho. Mas, é sempre nesta época do (fim do) ano que começamos a pensar mais em nossos feitos e desfeitos.

Não há como comparar realidades nem pessoas. Cada um é um mundo, todo um planeta girando ao redor de algo. O problema é se for exclusivamente de si mesmo, unicamente dos próprios direitos, aí pronto: não tem como não se irritar facilmente, se achar perseguido, pensar ser excluído... E centenas de sintomas difíceis de listar. Claro, todos saímos do sério e devemos, mas se deixar irritar é dar tanta importância a si mesmo – e ao outro - que só pode ter algo errado.

Com certeza ninguém deveria dar mais importância a quem somos além de nós mesmos, mas acontece de exagerarmos para mais e para menos. Somos demasiados humanos. Não temos múltiplas polaridades e sim momentos, nossos pensamentos íntimos, mágoas pessoais, mas precisamos na mesma quantidade estar em comunidade e estar sozinhos. Sorrir E chorar...


Seria o equilíbrio tanto procurado. Mente, corpo e coração sãos ou o menos insanos possíveis é o caminho, porém a vida e seu vai e vem começa e termina constantemente desde a Grécia Antiga, do Egito Medieval, da China Anciã... Há esta sabedoria desde o primeiro desdobramento da mente, do primeiro definir dos músculos, do primeiro expandir do coração, no entanto ainda não conseguimos Amar, não aprendemos a viver este verbo declaradamente sem posses, sem amarras, apenas seguimos o confundindo com prazer próprio e bens pessoais perdendo a real Liberdade.

domingo, dezembro 27, 2015

Debaixo da lupa (resenha)


Escuridão Total Sem Estrelas é mais uma obra-prima de Stephen King dividida em quatro incríveis contos. Neles é revelado o quanto podemos ser sombrios e agir normalmente simultaneamente. Fazemos coisas terríveis e boas ao mesmo tempo, às vezes sem nem dar conta. King só reforça o quanto é um ótimo leitor do cotidiano e da alma humana com uma imensa lupa sobre nós.

No primeiro conto, 1922, ficamos logo de cara, bem ali, sabendo que tudo vai dar errado a qualquer instante com a cumplicidade assassina de pai e filho. A tensão no invade cada vez que tudo é quase descoberto, mas ao que tudo indica o pior não é ser pego ou descoberto pelas autoridades... As sombras em uma escuridão total são bem piores.

Em seguida caímos na estrada com O Gigante do Volante e todas as trevas ao redor da violência sexual revoltante pelo mundo com uma escritora classe c sobrevivente de uma família tenebrosa... O filme com o envolvimento de King é totalmente fiel a este conto angustiante apontando todos os aspectos de até onde o ser humano pode chegar pelos desejos e pela dor.

Um pacto diabólico nos espera logo depois com Extensão Justa chegando a nos surpreender com os detalhes da inveja, da ira e da vingança silenciosa. É diferente de tudo já lido ou visto por nós e realmente podemos dizer que o Diabo está nos detalhes. Para fechar esta obra apagando o sol e qualquer brilho na noite por um tempo, lemos Um Bom Casamento. Neste o autoengano é sublinhado com a mais marcante cor florescente de reviravolta que já li. Como o conhecimento nos obriga a tomar atitudes e como estas vão nos mudar para sempre...

É sempre fácil falar de King, nem o é lê-lo. Não pela escrita ou pelos detalhes, mas pela verdade do que somos capazes.  Vá ler AGORA este vencedor do Bram Stoker e do British Fantasy!

*
Escuridão Total Sem Estrelas
Original: Full Dark, No Star
Stephen King
Tradução: Viviane Diniz
Editora Suma de Letras
Ficção Americana
copyright@2010

Brasil 2015
*

quinta-feira, dezembro 24, 2015

Tentativas


o horizonte rompe meu corpo
se quebra o som em estilhaços de adivinhações
órbitas alteram as trações
toda falta de espaço é infinito
gradualmente a gravidade se vai
os acúmulos de silêncios são um inacabado grito
nada mais cai...

Quando o sol se levanta
cada um disfarça sua dança
ninguém admite normalmente ser esquisito
uma voz canta...

Anulam-se eventuais casualidades na hora dos faniquitos
por que insistimos em ter tantos ídolos?
pedimos sorte na herança do acaso
nos encanta mais um ocaso

tentamos não ser esquecidos.

(Rafael Belo, quinta, às 18h39, 23 de dezembro de 2015)

quarta-feira, dezembro 23, 2015

Granizos (miniconto)




Eles estavam divididos, mas o calor fritando ovo na cabeça não permitia pensar. Era como se os pensamentos fossem água e evaporassem antes mesmo de se formarem. Aquele mormaço na mente só podia duplicar a visão, bambear as pernas e deixar as pessoas parecidas com dançarinas de frevo profissionais... Faziam círculos parecidos com harmoniosos, mas estavam passando mal casualmente. A única diferença era que casual era um disfarce para consequências.

Sô tentava fazer chover na mente e desejava isso, desejava ardentemente, quase em chamas, só precisava focar, enxergar algo. Não era a mesma vontade do corpo e sabemos: não há maior razão que o corpo quando este tem todo o controle. Todos os membros desse gritavam por hidratação, sombra fresca, banho gelado, sorvete trincando, limonada suíça, milk-shake... Hummmm.

Loreal não tinha forças para se juntar. Tentava decidir qual Sô era real, mas não queria irritar a mulher e como homem... Bem não tinha definição, se houvesse algo ideal não precisaria dizer frases como como homem... Ele não saberia nem em quantas partes estava dividido se ela perguntasse. No entanto, não só quer como precisa tomar uma atitude, porém seu desejo maior era algo extremamente refrescante para jogar na pele derretendo ou para dentro da boca fervente.

Eventualmente a sorte cria a própria inexistência e, “por ventura”, o isolamento. Em um esforço que os faria - desmaiar mais tarde - começaram a fazer chover e, consequentemente, pensavam no peso-morto da sorte ou azar. Leia bem, já não era possível dizer quem era quem, mas acredito ter sido Sô quem se pronunciou desta forma: - Diga que foi sorte cada bem adquirido por quem lutou uma a uma pelas próprias conquistas, se afogou nos próprios suores, abdicou de praticamente toda diversão, passou noites em claro, tudo que teve de deixar de lado, pense apenas por um instante Lore, pense...!

- Pense você, Sô - replicou Lore – naquele morador das ruas. Diga a ele que foi o azar o responsável pela situação dele, que foi o Cosmos ou Deus quem quis assim, o desejo de Alá, Buda, Maomé, Jesus, culpa da sorte dos outros, que foi o próprio descaso, a própria falta de vontade, que ele sofre abusos sexuais, é espancado, passa forme, frio, é humilhado, sempre é molhada pela chuva ou pelo suor produzido pelo calor excessivo... diga que ele merece este sofrimento, pense Sô...!

Depois o clima mudou. Eles se olharam e pensaram a mesma frase e só sei que falaram juntos: - atire a primeira pedra quem nunca jogou sorte ou azar.

O tempo fechou torrencialmente atirando granizo em todos as pessoas e lugares.

terça-feira, dezembro 22, 2015

Levante sem pele



Olhos brilham embriagados de lembranças
na última fileira dos pensamentos levanta as mãos a esperança
enxota a ronda dos cães infernais da depressão na ignorância
raivosas mordidas amansam quando a palma se estende e avança

aleatoriamente a casualidade opta pela distância

se encurta o longe alargam-se sorrisos rasos são os abismos
a união levanta

parda negra mulata amarela vermelha excluída só uma banda
colorida de recortadas peles arrepia
pia a coruja bem no instante da sabedoria passar

alegoria do tempo sentado a pensar com emoção
no derrubar das barreiras onde nenhuma fronteira existe no levantar da alma no coração.


(às 17h05, Rafael Belo, segunda, 21 de dezembro de 2015)

segunda-feira, dezembro 21, 2015

Herança do acaso


Notícia boa de verdade ninguém sai por aí espalhando, sabe? Tem aquela coisa de inveja, agouros e outros clichês, mas notícia ruim? Ah, esta pode ficar na boca do povo o tempo todo. Tanto a ponto de parecer serem as únicas... E também segue a sina de “notícia ruim chegar rápido”, aliás em época de tempo real, ao vivo, instantâneo essa só pode ser parente do Usain Bolt.

Falando em sina, fado, destino... Enfim, acabam por significar a mesma coisa, mas sina e fado – sabe se lá porque – sempre são usadas para designar algo ruim. Desígnios, às vezes, chegam a mesma finalidade. Mas, se fomos usar a capacidade de raciocínio desenvolvida por nós nestes nós de contradições diários, jamais definiríamos linhas traçadas para nossa vida inteira, traçaríamos?

Não sei qual sua motivação na vida ou sua fé, mas “pressupondo” sermos dotados de livre-arbítrio não haveria possibilidade real de decidimos sofrer abuso sexual, mortes violentas, suicídios, miséria, sofrimentos... Nem ser necessário passarmos por tais brutalidades para crescermos, evoluirmos, percebermos outros caminhos quando é possível de forma pacífica e piedosa aprendermos, nos arrependermos e escolher o considerado melhor.

Até acredito existir a capacidade de ignorarmos aquela desabrigada, abandonada à própria sorte, azar ou acaso... Espera uma pessoa é obrigada a jogar os dados diariamente e torcer para dar certo? Suplicar para ter alimento, abrigo, saúde, atenção, mais um dia para os filhos viverem? Não, não posso acreditar na casualidade, na aleatoriedade de tudo ou de apenas certos “algos”. Nem a isso somos obrigados ou sequer agradecidos.


Castigo, punição, inflição de dor, sofrimento, julgamentos não têm nada a ver com os ensinamentos de fé, empatia, oportunidade, iniciativa, motivação, dar a outra face, união, esperança, Amor nos quais são baseadas tantas crenças. Tudo isto é herança de quando ao invés de estendermos a mão ao próximo, ouvir, aprender, ensinar, respeitar apontávamos dedos, chamávamos quem e o que não era parecido com a gente de diferente, bárbaro, ruim, mau, mal... Espalhávamos o medo... E, infelizmente, este medo ancestral, bestial e egoísta ainda cega nossos olhos e nos faz divididos. Nem é preciso dizer, mas o digo, que enquanto assim formos seguiremos ao acaso na dor.

domingo, dezembro 20, 2015

Escuridão na luz (resenha)


Aos poucos a dúvida se instala, perturba, manipula de todas as formas possíveis e quando se dá conta pode ser tarde demais. O medo move manifestadamente nossos sentidos, nossos instintos mais profundos sem sequer nos avisar ou permitir refletir. Se há dor e esta for irreparável, irreversível as consequências são avassaladoras com os motivos nunca esclarecidos realmente. Ler O Demonologista nos prende na maior façanha dita feita pelo demônio: reforçar sua inexistência. Mas, "parece" que agora ele quer o oposto...

Andrew Pyper nos presenteia com esta leitura assombrosa capaz de nos levar a raciocínios perturbadores, tirando nossos fôlegos e nos forçando a lembrar de respirar apenas no limite da apneia. David e Elaine são a força motriz desta história assustadora que começa se desenvolver realmente que David aceita ir até a Itália aproveitando para passear com a filha de 12 anos quase idêntica a ele.

Os diálogos inteligentes nos fazem querer chegar até aproxima página enquanto tentamos permanecer em silêncio para que seja lá o que habita a escuridão não nos alcance e aterrorize. Mesmo assim não queremos nos separar desta narrativa surpreendente desejando o tempo todo que ao final tenham mais páginas. Pyper está no patamar de Peter Straub, Joe Hill e até do incrível Stephen King.


Não é por acaso que O Demonologista é o best-seller do New York Times, vencedor do Prêmio de Melhor Romance do International Thriller Writers Award (2014), finalista de diversas listas de melhores livros de 2013 e 2014, além de ter sido publicado em dezenas de países. Precisa de mais para querer ler este livro nascido clássico? A Dark Side mais que caprichou com uma bela capa, projeto gráfico e as ilustrações também são incríveis. Esqueça tudo que está fazendo e comece a ler ontem!
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Copyright@andrewpyper
Enterprises LTD, 2013
Tradução @ Cláudia Guimarães 2015
320 pag.
O Demonologista
Autor Andrew Pyper
Editora Dark Side
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