quarta-feira, maio 13, 2015

Irreconhecível


por Rafael Belo

Desabou o homem em uma queda seca e catatônica. Um baque surdo-mudo levando ao susto todos os presentes. Chico se debatia em seu silêncio e roubava o silenciar dos outros. Doía reconhecer sua ingratidão e desgraça. Então, insone, era o monstro da noite, os ruídos do prédio, o tédio do sonâmbulo culpado demais para dormir.

Arrastava sua corrente, rangia os dentes, batia portas e insatisfeito gritava. A noite não era de ninguém e silenciosa como um abismo ecoava seu som animal encurralado e ferido pelos sonhos terríveis dos outros moradores. Era impossível saber a origem dos sons e Chico sabia estar ruminando suas escondidas emoções.

Saiu no frio sem roupas depois de uma semana sem comer. Era pura água e náuseas estomacais. Toda vez Chico sabia da sua inaptidão para o amor. Falava coisas belas e as cantava, até aconselhava bem, mas como muitos, fingia não precisar dos próprios conselhos e sua forma de castigo era se privar das suas vontades...

Traído por si mesmo chorou como uma garotinha abandonada pela mãe por desamor. Fez-se oceanos de insônia com suas lágrimas doloridas e sinceras e se esvaziando voltou a se preencher, mas nas ruas paulistanas tão “pedindo pelo pior” não voltou para casa e toda sua família acreditou que Chico cumprira finalmente sua promessa de sumir... Enquanto isso, os meses devorariam os vermes conhecedores íntimos da aparência irreconhecível dele.

terça-feira, maio 12, 2015

Assopro



veleja no ar o pulsar das velas
tremulantes eras dos navegantes
apaga-se esta chama com a lama da chuva
não há mais velas acesas apenas nós em cera...

enverga-se o corpo rangendo até o chão [curva-se]

enxergar com a mão se perdeu no vento
turva visão enxergando outro movimento

não passa tempo nem volta
reviravolta-se a volta não dada

debate-se a graça e toda gratuidade nos devassa em sopro...

aonde vai a liberdade em sua revoada
se tudo a fazer com nossa passarada é cortar as asas gratas em pleno ar?


(às 14h20, Rafael Belo, segunda-feira, 11 de maio de 2015).

segunda-feira, maio 11, 2015

Graça e gratuidade

por Rafael Belo

Para manter a seda pura e no ponto o bicho-da-seda perde a vida para nos vestir. A vida tem o mesmo significado quando humana, vegetal e animal e por que não pensamos assim? Agimos como cegos e ignorantes ao recebermos os sacrifícios a nos permitir termos os nossos confortos, alimentos e cotidiano. Cada pequenez a usufruirmos custa algo. Não há gratuidade na vida a não ser a Amizade e o Amor e o quanto somos gratos a tudo isso?

Agradecimento parece viver do outro lado de uma imensa muralha a qual não nos dispomos a passar, ao invés disso nos emaranhamos a gestos e expressões parecidos com àqueles usados quando precisamos admitir nossos erros. Somos imperfeitos, esta é a perfeição e devemos ser gratos a isto também, mas por que temos tanta dificuldade de dizer obrigados sonoros e verdadeiros mesmo se o outro nem sequer deseja ouvir?

Temos medo de parecer fracos, pequenos e nos envergonhamos de nos sentirmos, assim, mesquinhos. Pensamos que nos expor é ruim... Bem desde que não seja nas mídias digitais e com intenção de ferir o outro, nos torna mais leves de corpo e alma, consequentemente, ficamos mais gratos pelos presentes diários da vida. A todo momento esta gratuidade de oportunidades deveria nos engrandecer.


Graça e gratuidade por podermos todos os dias fazer nosso melhor, de respirar sentindo o ar vagarosamente preencher nossos pulmões e oxigenar cada parte do nosso corpo, mesmo que não entendamos (por enquanto) o motivo de estarmos passando por qualquer dor e sofrimento a nos afligir, até quando nos perguntamos “por quê?!” os significados serão preparatórios e de fortalecimento para evoluirmos da correria... Para a mansidão.

sexta-feira, maio 08, 2015

Partindo adeus



Por Rafael Belo

Então é aqui que os cães se escondem quando fogem de casa? Viram cachorros de rua e, naturalmente, se tornam amigos dos mendigos... Pensou o pequeno Luís incrivelmente coerente no português. Mas Luisinho era destes geniozinhos que mal tinha entrado na pré-adolescência e não demonstrava nem a inteligência nem seu ódio pelos diminutivos fofinhos.

Saiu aquela manhã silenciosamente escondido em suas certezas de sexta-feira. Como se fosse para a escola, mas contrariado com sua passividade, como todo gênio, estava prestes a libertar suas vontades e eus mais obscuros. Já esfregava as mãos de ansiedade, a tensão no rosto já relaxava com um tenso sorriso assustador repelindo as pessoas como um ímã opositor.

Luisinho era todo satisfação e finalmente parou de se conter gargalhando furiosamente a ponto do motorista do ônibus o fazer descer sob nenhum protesto. Não suportava ver a alegria dos moradores de ruas com seus cachorros foragidos, então foi passando a mão em cada cão, incrivelmente sem nenhum protesto dos mendigos acostumados a perder, mas ninguém reclamava porque algo exalava daquele olhar e daquele sorriso...


Quem vive sem um local para dormir sob um teto acolhedor sabe exatamente o significado exalando de Luisinho: eram os limites quebrados da loucura. Certa insanidade apontando a capacidade imediata de matar ou morrer rascunhados no olhar e no sorriso. Ele se chamava ironicamente de “o” Injustiçado. Logo ele (logo eu) tão inteligente, podendo adquirir tudo e agora livre, mas com tamanha capacidade de raciocínio ele sabia necessitar de uma paz mais elevada e, por isto, partia. Apenas um cachorro o seguia para o isolamento onde nada chocaria com sua órbita colidida.

quinta-feira, maio 07, 2015

forçada comoção



injustiçados deitam na própria grandeza
tão pequenos dormem no  chão
bêbados de tantas filas de certezas
certeira certa verdadeira ilusão

não se chocam as órbitas
correm na mesma ilógica direção
colisão de inventadas memórias atraídas por outra atração

mãos se espalmam para cima não estendidas
sempre desentendida gravidade puxando tudo para baixo da consignação
crueldade total da característica da pureza
na tão úmida crueza que chove

gotas do oceano da imensidão no grão de areia rude da gentileza
sem pensar especificamente em nada erosão da clareza [se autocomove].

(às 06h44, Rafael Belo, quarta-feira, 06 de maio de 2015).

quarta-feira, maio 06, 2015

As primeiras horas de quarta-feira


Por Rafael Belo

Carolina Silva estava sentada na margem direita do canto invisível do próprio olhar. Sua expressão era algo entre pensativa e triste, mas quem pode confirmar se nem ao menos ela o sabe dizer. Uma coisa é certa Carol, aliás Karol S. (norte-americanizado mesmo como ela gosta de ser chamada) se sentia injustiçada.

Antes se sentia diferente e por isso, se achava no direito de ter mais direitos e tudo mais rápido se fosse possível se comparar aos outros. Todos os dias Karol chegava neste seu mundo com a mesma incerta expressão. Indefinida como ela mesma não gostava de admitir, porque era mais, era diferente mesmo, mas não tinha consciência de todos serem diferentes...

Igualdade apenas perante a lei e as condutas perante a sociedade.... ou algo assim... Da pele para os órgãos e aquela confusão de sentimentos e imateriais pensamentos tão pesados a ponto de confundir a materialidade não havia mesmo nada igual... Bem a questão do sentimento de injustiça, de perseguição se acumulavam como dunas no deserto pessoal de cada um.

Porém, neste exato momento não se passava nem vento na cabeça de Karol. Era o clichê dia de fúria da menina aos seus longos 18 anos em seu primeiro emprego forçado, pegou a faca de pão na cozinha e no impulso de castigar a sociedade machista que a criou tão bem para servir vestiu um cínico meio-sorriso de satisfação no canto esquerdo da boca e deu seu grito de guerra ao se atirar ao chefe este pensando ainda em “outras satisfações” nas primeiras horas de quarta-feira...

terça-feira, maio 05, 2015

adestramento



acima da dor dormente alheia nossas feridas
além de qualquer problema nossa justa reclamação parida
apressados justificando a pressa primeira passageira
das órbitas atingidas
colidem explodem [olhos saudáveis sem ver]
a pior cegueira sem gravidade grave a correr
caindo atrás de si mesma a permanecer

buzina onipresente
não se ouve, não sente
de onde vem vai recente enrijecer

grito inexistente
ainda está lá reticente
ninguém confirmou latente escutou?

gente impotente [nós no espelho]
trezentos e sessenta graus girando de repente
conselho circular ciclo inconsequente
acaba na nossa cauda
abana enrola balança senta
      rola cumprimenta
bate palmas despede segue morto
 todos tortos truques tramando tentar
                                                     o absurdo de não escutar o outro.


(às 21h18, Rafael Belo, segunda-feira, 04 de maio de 2015)

segunda-feira, maio 04, 2015

Órbitas em colisão


por Rafael Belo

Os fogos estouram lá fora como a ilusão da alegria de domingo de jogo, os cães se acuam com medo mortal das explosões antes que a segunda-feira chegue decretando o fim do feriadão e o início de mais uma semana de trabalho. Bom, é segunda-feira na expectativa de novas manifestações, novos congestionamentos e mais deseducação espalhadas no círculo viciante da vida.

Viciosa maneira canina de tentarmos morder nossa própria cauda e girarmos, girarmos em rotação e translação seguindo um sistema geográfico de posicionamento fora de órbita na lógica sem argumento, sem profundidade e mesmo assim nos tornando uma areia movediça de palavras erradas e gestos repetidos em um enlouquecedor déjà vu.

Provavelmente já vimos e fazemos e o faremos de novo, mas seguimos nos movimentando desesperadamente e afundando para uma morte medíocre. Não paramos para prestar atenção no outro e ajudamos a empurrá-lo mais para baixo enquanto há quem o empurre em nossa direção. Baste ver o ônibus nos horários de pico, trens e metrôs em dias de manifestação...

Mesmo sabendo que as portas não fecham enquanto alguém estiver nelas, há empurra-empurra desnecessário e uma total descortesia. Falta gentileza nas pessoas, sobra medo e estamos empanturrados de egoísmos. Achamos nossa dor ser maior, nossa reclamação ser mais justa, nossa pressa ter justificativa e se todos, ou a maioria, pensamos (pensa) assim, sabemos porque as órbitas só vivem em colisão.

domingo, maio 03, 2015

Grão de areia na gota do oceano (resenha)


por Rafael Belo
A tristeza é a maré necessária para nos impulsionar além da praia, para nos tornar quem precisamos ser. As alegrias são as ondas indo e vindo conforme os ventos soprarem e nós somos os grãos de areia, às vezes as gotas do oceano. Não há como sermos se não passarmos por alegrias e tristezas. Sãos os caminhos que escolhemos por nossa única conta e risco que irá florescer ou matar nosso jardim.

Amber Appleton é Quase uma Rockstar mesmo. Como Matthew Quick intitula essa forte e emocionante história tratando a religião e a relação com Deus, a vida e as pessoas de uma forma prática e informal sem amarras e incapaz de deixar algo de lado. É leitura indispensável da mesma forma de O Lado Bom da Vida.

Voltei a infância e a adolescência lentamente sem sequer perceber sendo envolvido pelo estilo leve e direto de Quick. Levou-me aos meus medos e leituras de clássicos infanto-juvenis no ambiente ideal àqueles que se veem e se deixam a margem dos clichês estudantis, da segmentação social já elaborada nas panelinhas escolares.

Os Cinco, JC, SJ, PC, os velhinhos, As Divas Coreanas, Donna, Rick, Franks, Triplo B e as fatalidades cotidianas não nos permitem nos afastar desta leitura marcante nos levando ao riso e ao choro na mesma proporção. Leia com atenção, pois há mais nas palavras do que elas dizem até chegar a um belo final onde nos vemos um grão de areia em uma gota no oceano.
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Desde que o namorado da mãe as expulsou de casa, Amber Appleton, a mãe e o cachorro moram em um ônibus escolar. Aos dezessete anos e no segundo ano do ensino médio, Amber se autoproclama princesa da esperança e é dona de um otimismo incansável, mas quando uma tragédia faz seu mundo desabar por completo, ela não consegue mais enxergar a vida com os mesmos olhos. Será que no meio de tanta tristeza e sofrimento Amber vai recuperar a fé na vida? Com personagens cativantes e uma protagonista apaixonante, Matthew Quick constrói de forma encantadora um universo de risadas, lealdade e esperança conquistada a duras penas.
Editora : Intrínseca
Páginas: 256
Ano: 2015
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sexta-feira, maio 01, 2015

Ponto final


por Rafael Belo

“Não deveria estar lotado este ônibus. No dia do trabalhador e uma sexta feira... Feriados deveriam ser vazios como a maioria de nós”, pensa Silvio olhando para a multidão estranha ao seu redor em contraste a ausência lá fora. Mas, não havia bancos... Deixando espaço para ainda mais pessoas. O cobrador também era um espaço em branco ocupado. O motorista não se via, havia escuridãoem seu lugar.

Todo lugar deixado vazio é imediatamente ocupado. Não importa bondade ou maldade toda a complexidade sai da superfície destas definições por isso, a lógica não faz parte das ações e do coração. Um amontoado de sombras... Sombras de outras sombras. Este é (era) Silvio. Ele não deveria estar ali pela lógica. Mas, a vida não é matemática. Silvio havia morrido há pouco.

“Estou mesmo morto? Morrer é assim, então...? ” Questiona enquanto sente seu cheiro. Ele fedia mesmo quando vivo. Desde que a escassez de água começou até agora quando a substituíram pela dengue e os 50 anos da Globo. Ele vivia isolado, morria assim também. Isolado e desolado pela própria aridez. Antes não costumava olhar ninguém nos olhos...

Agora com seus olhos murchos e opacos o fazia e parecia ver a mesma ausência de vida no olhar de volta a fixar lugar nenhum. Eles não se mexiam mesmo na velocidade inesperada. Tão rápido ia o ônibus  que em algum momento Silvio achou ser parte do clandestino exibicionista clube 299 (km/h).


Quando conseguiu fixar o olhar nos borrões parados lá fora reconheceu muita coisa. Lembrava de não ter qualquer memória de como acabou sentado no fundo do ônibus. Então a única luz que conseguiu enxergar acendeu vagamente em seus escuros olhos: minha carona para a morte... Sexta-feira é dia de rodízio de carros... E viu vário oitos e noves (todos no coletivo) que o acompanhariam para o inferno deles no ponto final.

quinta-feira, abril 30, 2015

círculos esquecidos


amanheceram sombras e se conheceram
imitações de contornos tremulantes
paradas forçadas a balançar ao vento prenderam
seus olhares zumbis delirantes

esperam cambaleantes chegar ao que esqueceram
suas formas tão tão distantes são invisíveis ao pegar

todos os vazios possíveis prosperam pragas pelo ar

os Amores impossíveis não existem se formos parar para pensar
conteúdos indizíveis são nuvens no sol da imaginação

sem querer amanheceu em todas nossas esquizofrênicas multidões
somos os dias esquecidos dos sonhos [ciclos da maturação].


(às 06h56, Rafael Belo, 29 de abril de 2015, quarta-feira).

quarta-feira, abril 29, 2015

Caricaturas


por Rafael Belo

Seus sombrios segmentos selam o dia. Sedutores olhos se sujeitam aos jogos dos olhares. Não vê luz e cede à sede bebe qualquer bebida social, quer lubrificar suas expectativas frustradas. Confunde liberdade e igualdade com cópia e degradação. Não lembra nada no outro dia. Nem sabem quantos destes se passaram. Tem bom cargo, mas salário ruim. As veladas formas de ser mulher, pensa Patrícia.

As cores do dia se confundem ao reflexo e à luz que caem pela manhã. Não tiveram a delicadeza de aparecer aos poucos e Patrícia não sabe se as cores que vê estão lá... Olha para tantos adolescentes de várias idades acumulando experiências e disfarçando sonhos para quando tiverem “bem-sucedidos” e assim cheguei até aqui, lembra ela.

Característico charme colegial... Uma caricatura das potencialidades ofuscadas pela “necessidade”. Como tudo na vida passa, vou passando... recita Patrícia com amargura. O mundo gira diante do seu hálito quente e alcoólico. Vê tantos corpos cambaleantes a caídos babando inconscientes de propósito... tantas sombras passam por ela a ponto de Patrícia tentar enxergar a luz.


Mas se confunde às sombras da mesma forma da confusão feita entre paciência e ficar parada... Foi preciso anos de embriaguez social para me encontrar misturada às sombras das possibilidades. Minha vontade é... Respira fundo, se acalma e tenta não pensar em nada. Fecha os olhos. Gritar e é isso, pensa enquanto grita e sente alívio naquele caminho respirando fundo com ela caminhando ambos em direção do amanhecer.

terça-feira, abril 28, 2015

interiores


manhã noturna retarda revigorosamente restos de ontem
sombrios olhos do horizonte
roxo branqueado azulando cinzento celeste
chovem invisíveis mãos juntas em prece

prestes a raiar rigorosos refúgios nascem outras horas
preste atenção aos ralados joelhos da devoção empenhora
empreste as alterações às sombras encare as nuvens

passageiras de passagem nas passagens estrangeiras
estrangeiro bloqueando os mensageiros que surgem

no amanhecer paciente ausente de nós e mesmo assim aqui dentro.


(às 07h05, terça-feira, Rafael Belo, 28 de abril de 2015). 

segunda-feira, abril 27, 2015

Em movimento

por Rafael Belo

Hoje o dia não veio como viria. Se tivesse vindo não teria este céu arroxeado com bordas alaranjadas. Mas mais para frente fica cinza e amarelo. Amanhã está aqui, mas a manhã não chegou. Chegaram às horas. Tudo está como devia... Há luz e por isso existe sombra, uma onda a apagar alguns acesos olhos e encobrir o Amor que está lá.

Uma cidade possui muitas camadas de sombras e quando o dia clarear elas vão aparecer. À noite ou quando a luz está em outra parte e apenas seu reflexo está lá livre ou parcialmente bloqueado, não podemos ver. As pessoas são cidades e muitas esquecem serem mais, sóis. Não um sol, mas muitos e é preciso muitas nuvens para disfarçar esta quantidade de sóis em nós.

Quando sozinhos é fácil enxergar só sombras, esquecer quem somos ou poderíamos ser, mas só enxergamos as sombras porque há luz. Se há luz, existe a esperança de sair deste algo a nos encobrir. Nossa alma é maior que nosso corpo por mais que a apequenemos, por mais sombras sermos capazes de espalhar, há sempre mais e muitas vezes menos é mais. Ao percebemos vemos a multidão que somos e seremos ainda mais junto com outras pessoas.


Achamos que o amanhecer vem no mesmo horário, mas o tempo é diferente mesmo quando o amanhã se torna hoje e hoje já se foi. Há densas sombras que pensam ser escuridão, mas haverá o tempo de aos poucos elas clarearem porque como o céu tem sua intensidade na metade do dia, há momentos de ficarmos nas sombras, mas elas são nuvens e passam, enquanto isso o Amor está lá, aí, aqui dentro de nós... Paciente e paciência não é estar parado.

sexta-feira, abril 24, 2015

Nota de falsidade



por Rafael Belo

Será isto que todos pensavam ou não pensavam nada antes de pular? Perguntava-se Piegas Eça enquanto se equilibrava na beirada do terraço com uma sensação de vastidão do mundo, pequenez e ao mesmo tempo posse. Havia uma angústia lhe mastigando vorazmente de fora para dentro, diante dos olhos dele. Doía e aliviava ao mesmo tempo como se o ar respirado lhe inspirasse e poluído, ácido, o corroesse.

Era a intolerância e a tolerância. Piegas era as duas coisas... Será possível ser duas coisas mesmo? Não! Conversava consigo se torturando com sua aflição diante das considerações próprias sobre as “erradas” escolhas e pensamentos dos outros. Queria ele ser profundo pensador como Voltaire, mas não. Piegas era apenas mais uma nota de falsidade no mundo.

Uma infeliz nota consonante diante da necessidade de dissonância e desequilibrado trocava as pernas olhando um mundo agora neblinando. De repente tudo ficou branco e gelado... As coisas mudam de lugar como o clima caindo com categoria desconhecida. Piegas tremia pensando na coragem das pessoas e ao olhar para baixo as procurando percebeu sua queda...

Estava tão alto a ponto de minutos passarem antes dele se dar conta de ter parado no ar. Bem, sua mão encontrara um apoio e agora Piegas olhava para os poucos centímetros o separando do fim do abismo naquele desafio de quem piscar primeiro perde... Havia luz e as sombras da luz naquele encarar triplo.


Os três assim ficaram até Piegas desviar o olhar e pisar no chão fascinado com uma vaca leiteira na favela alimentando um cão e um gato e apesar das óbvias diferenças, não havia diferença alguma. Ele sentiu algo se rasgar dentro dele como consequência de uma série de infinitos e tocou sua derrota sem estar preparado para admiti-la. 

quinta-feira, abril 23, 2015

pasmos




cai a estrela em risco no universo
céu caído calmo colisão

ruidosa rima rindo desequilibrada
desejando delirar desnorteada

entre o apagar do nada intolerante da tolerância
vingança em reflexo no anexo do preciosismo
[achismo ligado ao desligar]
piloto automático dominando a reação de passar

raciocínio branco constelações pasmas
egoísmo luminoso [rejeição] esferas de plasma.



(Rafael Belo, às 07h24, quarta-feira, 04 de abril de 2015)

quarta-feira, abril 22, 2015

Estrela caída


Por Rafael Belo
A estrela cadente cai como a mais brilhante do universo. Poucos a viam. No contraponto contraditório entre tolerância e intolerância se perdiam nos paraísos artificiais. Algo entre Orfeu e Morfeu na onda de Dionísio ou Baco, grego ou romano, tanto faz, mas a psicodelia estava ali tentando respeitar o direito de discordar, o cair e levantar de cada um. A realidade deixava dúvidas duradouras em quem a observava. Paulo Portas se abria neste limite entre o fim e o abismo.

Poeta, médico, moldador de sonhos esta grega mitologia se atrelava a Paulo Portas, o intoxicador. Nenhum tóxico lícito ou ilícito... Não mais. Causava terrores noturnos e uma cisão atemporal fechando Portas na rua. Ele e o abismo se encaravam, no entanto o fim também os encarava em desafio àquela forma artificial de empurrar a vida adiante, distante o suficiente para não alcança-la para puxar de volta.

Enquanto isso, a estrela caia e aos poucos muitos a viam. Mas, era um horário da noite onde ninguém sabia mais onde estava. Estavam entregues as formas de sobreviver a mais um dia no inferno natural cheio de paraísos artificiais, cada um com o seu, ou os seus...  Não havia limite entre superfície e profundidade a realidade alternativa invadia a mente intoxicada de todos.


Intoxicadas de informações de mais, toques de menos, distâncias demais, maus pensamentos sobre a insônia babando nas ruas até lembrar do desejo concedido pela estrela caída vista, à vista no prazo perdido da sanidade carregando sua placa com os dizeres “o fim já chegou! Vamos recomeçar?”  Então, Paulo Portas abria a próxima oportunidade e defendia o direito de sonhar.

terça-feira, abril 21, 2015

Aprisionados



Matam-se os dias mastigando o dissabor das horas e não dá tempo
ruminar faz parte da história de irmos para o brejo sem consentimento
tolerar a intolerância auto anulação
viver na extravagância de querer que o outro concorde
dar suporte a única unânime opinião

sutil estratégia manada histérica em movimentação

comportamento da extinção do pensamento
suicídio coletivo do aprisionamento do pranto
portas estão em todo canto
mata-se e ponto.


(às 11h02, Rafael Belo, 20 de abril de 2015, segunda-feira)

segunda-feira, abril 20, 2015

Até a morte


por Rafael Belo

O dito nem sempre é importante, como dizê-lo é essencial. A escolha de palavras e o tom a ser usado muda completamente para quem ouve, mas se tirarmos de contexto uma fala insossa sem pontuações, ela caberá em qualquer conversa ou, então, o silêncio continua sendo de ouro porque nos tornamos tolos e antipáticos ao nos mal interpretarmos.

Sem prática, busca de melhoria e a aceitação de que por mais que saibamos nada sabemos... Não evoluímos. Ficamos tão estáticos a véspera de feriado prolongado na capital paulista. Prestar atenção no outro e em si é primordial para não parecermos arrogantes, pretensiosos e passarmos os sinais errados. Caso não nos observarmos daremos o tom professoral e paternalista incabíveis em toda situação.

Diálogo, no entanto, não é a solução para tudo. Como dar opinião para quem não quer ouvi-la e, pior, deseja apenas um aval desnecessário do outro para confirmar o próprio pensamento? Um rompante de uma ideia original e considerada por si genial querendo simplesmente aceitação... São os monólogos disfarçados por toda parte contaminando a capacidade de raciocinar e transformando democracia em comportamento de manada.

Esta preguiça mental instiga apenas a projeção de si no mundo impedindo a própria rotação enquanto tudo não para de girar. Parece conversa de bêbado, mas talvez seja apenas o desejo de estourar tantas bolhas de antipatia tentando nos englobar por aí tagarelando sobre tolerância sem se ater da pouca diferença de seu suposto antônimo: intolerância.

Um tolera e outro não. Mas, se formos analisar não são realmente opostos porque tolerar esta a uma vírgula de “por obrigação o faço” e “intolerar” não faz nada por obrigação... Não nos cabe tolerar ou apontar o dedo, seríamos mais felizes se respeitássemos e defendêssemos o direito de todos independente de nossa opinião e de concordamos com o assunto. Por isso, chamo o filósofo iluminista francês, Voltaire que há 227 anos nos ensinava: “Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las.

sexta-feira, abril 17, 2015

À procura de


por Rafael Belo
Dedos frenéticos me cercam absorvidos na silenciosa conversa das mãos com o celular e outras mãos distantes, vendo a si mesmas em um frágil reflexo pálido. Sou o único a ler um livro. Em pé no ônibus em silêncio, consigo me distrair da reflexão da leitura a todo o momento, mas especialmente quando a janela empoeirada e cheia de digitais me reflete e me coloca entre onde estou e no tumulto barulhento das ruas já a esta hora.

Este era a imagem do primeiro ônibus antes da 6h, no segundo algumas línguas já estavam despertas e serpenteavam o leve bafo da manhã lançando perdigotos e uma tagarelice respeitável para o horário. Já era próximo da 7h e o joelho doía, reflexo de tanto tempo em pé e na dúvida da imagem representada em um verdadeiro espelho. Distraia-me com aquele vocabulário peculiar querendo o retrato de si na opinião do outro, ao invés de me concentrar na leitura e no impacto da imagem das freadas bruscas do ônibus em meus joelhos.

Correndo para não perder o terceiro ônibus, já estava acordado há três horas e o trabalho em si ainda não começara. Cansado, insisti na leitura durante o encaixe a me esperar no fundo deste coletivo. Bem debaixo do meu livro havia uma matraquear silencioso de uma reflexão sem espelho, apenas projeção de pensamentos.


A mão do senhor espalmava para cima repentinamente ao mesmo tempo em que sua cabeça inclinava levemente para a direita, pontuava aquele diálogo consigo mesmo e só eu percebia. Quase podia ver o que ele via e mais uma vez me perdia no autorretrato do outro, imaginava onde estaria o meu. Saquei, então, meu celular para registrar o autorretrato que procurava.