sexta-feira, janeiro 13, 2017

Quando tudo está perdido (miniconto)




por Rafael Belo

Ijara nunca teve superstições nem crendices. Acreditava no que via e tocava igual qual Jó. Tudo bem, alguém precisava ser desta maneira... Mas, neste dia 13, sexta-feira 13, normalmente seria mais um dia comum... Hum... Normalmente. Tudo de 2016 havia deixados marcas terríveis e profundas provocando terrores noturnos em Ijara. Ela estava quebrada. Corpo, mente, coração e nada, nada mesmo tirava da cabeça desta pessoa que a primeira sexta-feira 13 do ano faria juz aos clichês, superstições, crendices populares e cada lenda urbana.

Deveria mudar meu nome para Murphy. Pelo menos teria a vantagem de ter minha própria lei: se algo tiver que dar errado, dará. Ah, com certeza deu! Já passei dos 30 faz tempo. Não tenho família que preste, meus amigos já têm muitos problemas, homens... Enfim, diz por si só. A última coisa de minha posse, de minha propriedade... Era o carro... Primeiro ele me quebra, depois ele quebra e me quebra mais ainda e agora... Ah, engole o choro... Não vou chorar! Se tudo está tão ruim vou ser ainda pior!

Faltam poucas horas para amanhecer e lá vem à alvorada dar na minha cara... Humm! Ei! Está úmido e nublado... Não acredito que vai... ISSO! Be-le-za!!! Fiquei p da vida agora!! Mais!! Já não sei onde morar... Não tenho, Né?! Agora estou instantaneamente encharcada e uns dez quilos mais gorda. Aff! Ninguém merece! Não algumas pessoas merecem sim e até pior. Olha... A toda certinha da Sauna tão longe... Reconheço só pelo jeito Popozuda de andar... Se bem que pode não ser ela, nunca a vi correr desesperada desse jeito...Nunca a vi correr. Ah, está de brincadeira... Quem disse que nunca tem uma viatura policial quando precisa. Vixi! Ela desabou! Ei! Espera! A Murphy aqui sou eu. Ela é tio Patinhas com Gastão!


Problema dela! Tenho os meus a resolver. Pelo menos distrai um instante para ter toda a eternidade para me concentrar nesta vingança. Mas, vou me vingar de quem?! Da vida? Ah, isso só pode ser uma pegadinha sem fim... Cadê as câmeras?! Quem eu estou querendo enganar?! É uma piada que se repete e repete e repete até alguém achar graça. Uau! Que ideia brilhante! Sou uma gênia mesmo! Se eu roubar dos políticos vou fazer justiça e bem... Não seria roubar, seria? Hora de aproveitar minha prática em t.i e programação... Preciso só de um notebook e de uma casa. Sei do político ideal. Rá! Quem estou enganando! Não há políticos ideais!!

quinta-feira, janeiro 12, 2017

Imaginar-ser




corrupção canalha cultua pequenas almas vendidas
ativas ainda alterando exageradas palavras perdidas
na seletiva hipocrisia atada aos desatados nós da vida escondida
gritam ignorâncias quando quem é passageiro nunca quer descer

esperança aparece na prece do povo mas com os doloridos joelhos como em pé se manter?
ouvimos tão pouco há tanto tempo falando pelos ralados cotovelos do proteger
o fio da vida se enrola em uma trajetória de espelhos admirando o admirado permanecer no aconteceu

ah, otimismo automático disfarçando os dramáticos pensamentos
somos ao mesmo tempo diversos momentos em um só ser

é natural abastecer respirar fundo e contar fechar os olhos e se imaginar.


+às 09h45, Rafael Belo, quinta-feira, 12 de janeiro de 2017+

quarta-feira, janeiro 11, 2017

Tráfico de torturas (miniconto)




por Rafael Belo

Sauna corria pela vida. Usava todas as forças ainda restantes com razão. Era a mente mantendo o corpo em colapso, ativo. Fugia em busca de proteção. Foi torturada até enlouquecer. Ela só pensava em sobreviver. O instinto natural, animal, que ela nunca teve... Nem quando criança chorou. Já nasceu com a face fechada e os olhos buscando algo. Era uma exceção. Ainda duvidava de isso ser bom. Só a fez mais dura e é dureza passar os anos assim. Mas, a vida não era a pura hipocrisia que seu pai falava? A vadia que a mãe acusava de ter acabado com ela?

Sobrevivi até aqui com estes pensamentos e acabei sendo torturada por uma horda de malucos querendo o futuro, querendo a vida eterna... É bom pensar em outra coisa para esquecer a dor do corpo... Mas, não sou maluca também? Como culpar a vida pelos meus caminhos? Se eu sentar agora – provavelmente vou morrer – a vida vai continuar, independente de mim... Vou ficar reclamando? Acusando? Xingando? Acumulando raiva? Vou parar de viver só para me vingar? E depois? Nossa! Como está quente!!

Não importa o tipo de agente que fui? Ninguém consegue ouvir nada que eu não queira dizer! Não é que a vida seja traiçoeira e quando tudo parece bem... Bumm... Não é eu ser mulher o motivo... Não temos controle... Mas, não vou me permitir ficar com raiva, a não ser agora... Até conseguir falar com meus colegas... Preciso colocar este ódio e este medo para fora antes disso me derreter, acabar comigo, a dor acabou me revelando, me fazendo chorar... Isso foi raro, mas não vou agradecer pela tortura... Tudo começou com uma simples desconfiança, uma intuição e não é sempre assim?

A investigação acabou comigo sendo torturada, mas só minha palavra não basta e – querendo ou não – vai ter o machismo, vão falar de histeria, vão questionar minha certeza... Mas, passar por adolescente e ser descoberta foi arriscado demais... Traficando a infância, vendendo a juventude e comprando adultos defeituosos. É um “belo” mercado e eu achando que acabaria com ele... Meus supervisores vão me trucidar... Ah, mais do que já fui é impossível. Tinha certeza que estava no Centro da cidade e a cidade não chega nunca... Minhas pernas começam a falhar!!

terça-feira, janeiro 10, 2017

Terra




ignoram as horas seus minutos de hipocrisia
seletas ignorâncias para não causar azia
passam fora do círculo vão em tortas linhas
fabricar um tempo de ilusão perdida

no dia rótulos se etiquetam em conflitos
os atritos faíscam até ser chama
chama o fogo um incêndio de vícios

indícios do esfriamento dos passos lunares
troca-se o pé pela cabeça na lua

atua a reação na aterrissagem todos temos nossas mensagens.


+às 09h26, Rafael Belo, terça-feira, 10 de janeiro de 2017+

segunda-feira, janeiro 09, 2017

A hipocrisia da ignorância seletiva



por Rafael Belo

A hipocrisia da ignorância seletiva fica perdida nas palavras, se esconde nos desatos. Esta falta de ato fica na fala. Nós falamos tanto e ouvimos tão pouco há tanto tempo que é de se admirar estarmos admirados com nossa vida hoje. O otimismo exacerbado, exagerado mesmo, nos faz acreditar sempre na cegueira na qual vivemos. Não é segredo, assim como é palpável de tão real, termos pensamentos negativos, nos irritarmos, sermos pessimistas... É natural como respirar. Claro, é algo passageiro ou deveria ser.

Passageiro como as crises e os políticos. É fácil achar um culpado e jogar todas as outras culpas nele. A exposição é menor. Mas a profissionalização da canalhice, da corrupção criaram duas espécies de políticos: os profissionais e os profissionalizando. Isso desde o início desta espécie. Eles entram no jogo do poder para poder fazer algo de suas promessas. Pode não ser troca em dinheiro, cargos, cabide familiar, tráfico de influência, peculato, esta forma de corrupção em si, mas este meio contaminado e falido troca favores para sobreviver, para mostrar serviço, para ter algo aprovado, para ter pauta positiva nos jornais, para ser lembrado, tudo é planejado – nem sempre bem, mas o é.

Promessas deles e de nós mesmos também são corrompidas, deturpadas, adulteradas mesmo, ou simplesmente interpretadas da melhor forma para se justificarem, para nos justificarem. Podemos até não sermos de todo hipócritas, mas há muita hipocrisia em nós. Usar a máxima: não é possível fazer omelete sem quebrar os ovos, é a desculpa perfeita para seguirmos atalhos para o frigir dos ovos, para termos a refeição, mas será que estamos tão bagunçados, tão indiferentes, tão frios a ponto de não ligarmos para o significado de quebrar os ovos?

Podemos sempre ver o lado bom de tudo, mas não podemos descartar os lados ruins porque – a não ser que exista um dano, uma contaminação – há 50% de chance de dar errado e, óbvio, 50% de chance de dar certo. Há perigo em toda parte, a vida e o clichê do risco... Não somos rótulos incapazes de sentir diversos sentimentos conflitantes ao mesmo tempo sobre a mesma situação, sobre a mesma coisa, sobre a mesma pessoa. Só é mais hipocrisia não admitir isso e não agir diante dos fatos é simplesmente covardia.


Nós precisamos ter em mente que nós criamos os nossos próprios monstros e, por ausência, presença ou omissão, ajudamos os outros a criarem os deles. Ser humano é imperfeição, é erro, mas não podemos usar estas obviedades para seguirmos andando para trás perdidos nas palavras, escolhendo a ignorância da vez. Esta seria a única loucura: viver no famoso passinho do moonwalk. Esta caminhada lunar é apenas um passo de dança e é para trás. Que tal escolhermos caminhar para frente? Para existir agora é necessário reagir.

sexta-feira, janeiro 06, 2017

Chamam de virada... (miniconto)




por Rafael Belo

Por um instante, Leara, pensou ter visto uma sereia. Ela estava contemplando o céu e acompanhando a extensão da beleza do fim por todo o céu, quando um movimento fez seus olhos fixarem na maré. Era um vulto deitado imóvel com o que parecia ser um vestido branco e as pernas cobertas pelo mar. De repente, a praia foi engolida tão depressa e já não havia mais nada. Claro! Não era uma sereia! Elas não existem! Só faltava logo no primeiro dia de 2017, a Ariel aparecer... Leara sacudiu a cabeça para se livrar de pensamentos impróprios e voltou para seu fim ou era o começo?

Foi um lapso? Um ato falho? O que aconteceu? O dia está começando ou terminando? Para Leara, pense! Só lembro-me aquela mulher na praia, mas era só algum destroço, não era? Há um limite para tudo... Pelo menos eu limito, imponho metas, delineio os espaços... Ou eu só fingia ser assim? Caraça! O que eu tomei? Quanta confusão. Está me dando uma dor de cabeça... Espera! Eu não estava sozinha! Tínhamos combinado de vir todos e estávamos vindo até... Não. Só um clarão do sol saindo de trás das nuvens e trazendo... O Que!? Amnésia?! Regressão?!

Só posso estar acontecendo e algo me diz ser assim toda virada. Acontecendo? Não! Enlouquecendo!! Estou mesmo! Nossa senhora! Será? Será este um ponto de igualdade paralela no tempo? Dá onde tirei isso?! Mas parece lógico... Há um ponto de convergência todo o ano na mesma hora onde tudo e todos vão ficar sós para tudo e nada ser a mesma coisa e, às vezes, só às vezes... Alguém tem o direito de perceber isso indo para outro ano? Reinventar-se? É! Já inventaram isso. Chamam de virada...


Tenho certeza... Estava de relógio... No chão?! Hum... Trincado o vidro, os ponteiros formam uma cruz... Mas não eram só três?  Meu celular novo? Ganhei no Natal! Quem sabe tenha fotos, vídeos, pistas e ele me ajuda a me preencher... Será que eu quero mesmo? Posso ser quem eu quiser agora... Peraí! Este sol não vai ser pôr ou nascer? Dez, nove, oito, sete, seis, cinco, quatro, três, dois, um, zero, menos um... Estranho! Hoje já é sexta-feira... É 2017? Alguém? Olá?

quinta-feira, janeiro 05, 2017

se não for sorriso



 renova a pele descamada camada sob camada dos anos que ainda virão
há uma imensidão de passados impregnados nas marcas do corpo
céu e inferno se perpetuam em uma eterna fumaça

não importa nossa façanha há algo no faça a nos derrubar
precisamos cair para enxergar para entender o desentortar no topo
há uma constelação pulsando fora das nossas mãos em datas esparsas


janeiro vem certeiro dando a sensação de recomeço de novo
quantos interiores guardamos sob o peso solto da nossa pressão?
os silêncios doem no peito enfartam horas ainda não nascidas

jazem abortadas já sem serem sequer seduzidas pela vida
convertendo tempo em espaço afrouxa o laço é o invisível
impossível de se ver com os cotidianos olhos se não for sorriso.

+ Rafael Belo, às 10h57, quinta-feira, 05 de janeiro de 2017+

quarta-feira, janeiro 04, 2017

Eu, fantasma de mim (miniconto)




Por Rafael Belo

Ela simplesmente acordou ali. Havia um sol se pondo de um lado com árvores e uma estrada no meio. Logo aos seus pés o mar se atrevia a ser maré e subir aos poucos pelas pernas. Mesmo assim ela não se mexeu. Abela olhava para todos os lados enquanto o mar voltava a engoli-la e pensava no ano que estava... Também pensava sobre a própria efemeridade, o quanto a vida é um sopro e naqueles loucos quebradores de promessas anônimos. Mas esperar o quê?

O Ano Novo chegou? Se chegou foi para os outros. Nem sei onde estou e este tal de tempo não cura nada só nos ensina a lidar com as coisas certas e, principalmente, com as erradas. Eu ainda sou 2016. Não vou esquecer porque serei assombrada por mim mesma. Eu, fantasma de mim, nesta água salgada me fazendo me sentir viva, então só posso concluir que não estou morta, certo? Mas não tem uma reles criatura para me garantir! Já sou fantasma de mim...

Fantasmas pensam ou apenas agem como resíduos da memória de quem foram? Eu preciso pensar pausadamente para lembrar de tudo. Estive na festa na ilha e como não bebo, não bebi, certo? CERTO? Droga, mas então como eu vim parar aqui?! Onde é aqui?! Eu só fui naquela festa por um beijo e continuei sendo trouxa... Quantos ele beijou, afinal? Ah, Abela pensa em você e esqueça este que não vai nomear! Sim! Foi isso! Eu me afastei pouco antes da meia-noite e o cruzeiro... Fez um barulho ensurdecedor de quadro-negro sendo arranhada e então... Então... Eu cai!

Sou eu fantasma de mim realmente? Onde estão os destroços? Por que aquele som horrível só podia ser uma pedra abrindo o casco do navio, certo? Droga, droga, droga, drogadrogadrogadroga.... Meu Deus! Este mar está me puxando! É o refluxo! Aho aho aho... Estou me afogando. Fantasmas morrem? Ei! Como posso estar aqui em cima e na popa deste cruzeiro? Onde estão a praia e o sol se pondo? Quando ficou tão tarde? Será este fio o Tempo?

Abela estava sorrindo longe de todos na popa do navio pensava no ano que viria. Era 2014. Ela era feliz e não sabia. Era?

terça-feira, janeiro 03, 2017

Descobertas



erradas linhas desentortam formam portas que se abrem sem chave
três traves travam tudo no nada
uma encruzilhada onde nem tinham paredes
há uma rede bem gostosa para embalar
um quarto aparece com quatro divisórias provisórias em um lugar antes inteiro

É janeiro primeiro antes das coisas começarem

mais uma miragem do novo daquele déjà vu acumulado da vida até aqui ali na nossa frente pousa pavoneando paralelos um pássaro
laço livre laceando liberdade no horizonte que se põe

compõe um som inédito com créditos carentes dos silêncios voam lenços antes tensos no vento preguiçoso denso diluído detalhadamente atrevido nos descobrindo raros.


+às 09h01, Rafael Belo, terça, 02 de janeiro de 2017+

segunda-feira, janeiro 02, 2017

Coisas erradas




por Rafael Belo

As pegadas atrás de nós mostram o peso da gente. Não os quilos do nosso corpo, mas o tanto de desnecessidades se acumulando dentro da gente. Cada um de nós traz uma quantidade incalculável de poeira escondendo quem somos e quem podemos ser. É uma sujeira curvando o corpo, baixando os olhos, adiantando um envelhecer inexistente no cansar dos olhos, no arrastar dos pés, na desistência triste lapidada na expressão sempre distante da face. Nossos pés estão tão fundo no concreto que é preciso muita flexibilidade para retirar a perna do buraco para o próximo passo.

Não estamos ocupando nosso espaço, nem estamos presentes. Vivemos de uma ausência complexa fabricando um vazio constante e estamos de enfeite na estante assistindo nosso próprio espetáculo sem nos reconhecer. Somos novos! Um novo ano acaba de nascer! Não somos promessas nem este ano ou os que foram e virão. Somos realidade, sonhos, presente... A simplicidade, os detalhes dos pequenos gestos... Nada de espera. Não me venha sentar e aguardar o fim dos tempos, o advento porque já acontece tudo isso em nós.

Somos este milagre que a gente tanto espera, esta chance de prosperar, esta oportunidade de se realizar, as boas novas, a Paz e o Amor. Nenhum destes é um sentimento. São estados da nossa Alma, são sujeitos do nosso Coração. Nós somos o tempo. Não há idade. Há a experiência e a sabedoria tentando serem vestidas, respeitadas... Mas, veja só - olha a gente – nos deixando levar pela ira, pela discórdia, pela ausência, confundindo esvaziar com vazio, esquecendo de nos olhar nos olhos, entregar um sorriso, desejar o bem e o bom...!

É de se envergonhar nossas mentiras, nosso comportamento, este temperamento velho, rançoso dominando a necessidade criada de dinheiro e glória. Quem ganha com nosso egoísmo, nosso empobrecimento de ideias, nosso esfriar do coração, nosso apequenamento da alma, nossa descrença? Por que matar nossa criança e impedir a infância de quem nem chegou a adolescência? Estamos nos tornando máquinas da eficiência: duros, mecânicos e conectados. Buracos negros engolindo nossas mãos estendidas entretidas com as coisas erradas. Nossa liberdade faz revoada de um pássaro multiplicado e nós não vemos nada.

sexta-feira, dezembro 16, 2016

Mundo mudo (miniconto)




por Rafael Belo

Nenhuma resposta audível nem gestos, só o silêncio. Mas, por dentro Lumi iluminava, tagarelava, cantava, criava, talvez não haja nenhum registro de uma inteligência como a dela. Porém, ela não desejava interagir ou mostrar para alguém todas suas criações. Lumi guardava tudo, ou melhor, escondia. Era segredo sua real personalidade. Ela não é quem finge ser. Lumi não fala de passado ou de presente. Para o mundo é muda. Nem mesmo os pais sabem, ainda que os médicos garantam ser psicológico o motivo da mudez, eles não admitem ter uma filha “louca”. “Meu Deus, não!”. Era melhor a mudez.

Eles tinham medo dela e a deixavam só com os pensamentos de Lumi. O combinado silencioso era ótimo para ela. Ela subia no último quarto, do último canto da casa onde somente ela tinha acesso e apagava o mundo. Não, não. Nada disso, ela iluminava o mundo com poesia, romances, composições, com a própria voz e aquelas saindo dos instrumentos musicais, pinturas, coreografia... Ela se bastava. Não, não é verdade. Não havia única alma capaz de imaginar tanto talento acumulados em um só ser. Mas, Lumi não se permitia sofrer.

Lumi acha um desperdício conversar quando pode ouvir e mostrar arte, artes mais precisamente. Lumi não é uma só, é incontáveis. Por isso, não é justo a acusar de não ser a própria real personalidade. Ela o é em parte. Uma parte precisamente precária. É o pior dela porque ele pensa ser isso que as pessoas merecem. Só dá para o mundo indiferença e é indiferente com as pessoas. Não faz diferença para ela. Bem... Ela vive repetindo não fazer. Mas, talvez seja verdade ela não tem simpatia e nenhuma empatia. Não é possível saber. Ela é totalmente isolada.


Nada é irremovível. Nada é constante. Houve um tempo no qual Lumi era livre, especulativamente falando. Todos os registros dos cinco anos dela foram apagados. Lumi compunha as próprias músicas e esperava a reação espantada das pessoas e, no início, maravilhadas, mas logo deixavam de achar uma gracinha para “como é possível”, “que criança esquisita”, “ninguém a força?”... Era destruidor para a pequena Lumi que hora via seus pais explorarem esta peculiaridade dela, hora babarem de alegria e hora temerem. Ela desde então, nada faz em público. Até neste momento que chega sua prima, muito parecida com ela e se encaminha – sem ninguém ver – até o quarto secreto de Lumi.

quinta-feira, dezembro 15, 2016

previsão



rasga o solo infértil comunidade de brotos
tortos para seguir a própria reta na meta de florescer
crescer até no asfalto quente ilustre indigente contracorrente frio aquecer

efervescer no ar enquanto a chuva cai fazendo curva em cada esquina
é música agridoce sina do destino aglutina a contramão desconstrói

voa o herói pela cidade de brinquedo se molha no espelho esquece a pressa

conversa com o cosmos Cristovãos Colombo Buarque Deus lhe ache a arte
pague apague cinza chumbo chuvoso tarde o universo hamornioso
estrela luminoso nos olhos do artista a Alma revolucionista da criação

há flores até onde não se vê o futuro não se prevê é previsto no coração.


(às 11h44, Rafael Belo, quinta-feira, 15 de dezembro de 2016).

quarta-feira, dezembro 14, 2016

Os atraídos (miniconto)




por Rafael Belo

Zumbem os insetos e emitem todas as onomatopeias próprias deles. Até pararem para escutar, mas não se aproximam enquanto as pessoas se aglomeram. Há um respeitoso silêncio entre elas envolvidas pela música tocada. A flauta de Hamelin está pendurada no meio do ambiente, ninguém ousa tocar, ninguém ousa falar, ninguém ousa cantar, mas todos querem. Ratos e crianças desaparecem neste instante e o prometido não é pago. Os instrumentos do lugar também hipnotizam com os músicos elevando as almas para os dedos, os pés e vozes.

Há amplificadores por toda parte e a cidade não emite nada. Cessou o vento, nada mecânico funciona nem elétrico ou tecnológico, exceto no bar para onde estão todos indo silenciosamente. Quem tocava era a última banda já ouvida neste país com violão, guitarra, baixo, bateria, percussão, sax, trompete, flauta, tuba, violino, violoncelo, piano, contrabaixo, viola, sanfona, triangulo e zabumba. Todos também eram voz, mas a verdade é que 1% das pessoas estava chegando, o restante não conseguia sair de casa. Zumbiam e emitam todas as onomatopeias próprias delas.

Zombem se quiserem... Vocês já perceberam a ausência de alguém? Aquele alguém na contramão do cotidiano? Já sim! Pode confirmar! Elas são como lâmpadas sem apagar jamais. Luzes no caminho iluminando os passos. Sóis nos despertando, nos amanhecendo novos e exultantes. Atraem a todos e os fazem crescer emocionalmente, espiritualmente, mas só crescem mesmo com seus iguais. Sem saberem simular era O instrumento no momento. A Banda atraia no momento artistas que são a famosa Alma dos lugares, das famílias, dos amigos e da cidade.

Os atraídos tinham lido A Revolta de Atlas (Who is John Galt?) e sentiam que algo assim aconteceria. O tal do “algo me dizia...”, mas nenhum deles era filósofo nem gostava de ser rotulado como homem de razão. Eles preferiam serem tachados de loucos e taxados por isso, enquanto os verdadeiros donos da loucura permaneciam achando serem donos de algo. Está quase amanhecendo e os atraídos seguiram A Banda até o estádio encantados pela música que queriam cantar, mas não cantavam. Não se sabe ao certo quantos são, mas está tudo realmente vazio agora. Ao amanhecer só havia desaparecimento e coletivos de silêncios.

terça-feira, dezembro 13, 2016

Pessoas (con)julgadas



 há uma luz pairando no ambiente a gente a sente ela sente a gente
é uma corrente livre soprando para longe tudo que dói
convoca às artes cada um dos nossos heróis
mártires diários da vida atrevida fiando a corda que a gente rói

quantos sóis nascerão em nós até entendermos nossa alma pura?

apura o olfato atenta os ouvidos feche os olhos morda os lábios sinta na pele
sele coração cele vento se eleve quanto leve liberte lentamente o selo rompido
quando a música se revelar cante há músicos a nos brindar com um implante a coçar
está no ar acariciando atrás da orelha traz o infinito do encontro com o horizonte e o mar

a cela psicológica não tem mais lógica solte o vento vá voando junto
até a terceira pessoa passar para segunda e ser primeira eu nada serei tudo.


(às 12h31, Rafael Belo, terça-feira, 13 de dezembro de 2016)

segunda-feira, dezembro 12, 2016

Heróis das artes



por Rafael Belo

Começa a música e todos se iluminam. Cada um lembra-se de um momento, cada um canta como se estivesse no palco e esta fosse a vida. Não tem valor. As pessoas se unem em uníssono e naquele momento somos um. O poder atômico de cada canção reconstrói mundos, conecta pensamentos e eleva o indivíduo a um coletivo sorridente e compartilhado, mas o lado b não é bonito. A valorização dos músicos sobrevivendo da música e da boa energia do público é gratificante, é energizante, eleva uma satisfação flutuante, porém é praticamente inexistente.

Há bares aos montes por aí. Por onde passamos há um local para diversão, entretenimento e música boa, mas as pessoas e os donos destes lugares “esquecem” que é uma profissão. Quanto tempo dedicado para estudar e aprender um instrumento, para afinar a voz, para chegar ao tom, as notas, aquela cadência, aquele ritmo, naquela quase perfeição foi necessário - e ainda é - para criar um repertório, para ficar no mínimo satisfatório para o público? Este tempo não tem limite porque a cultura não tem limite e mesmo sendo inestimável o valor, nem 1/3 do salário mínimo é repassado para estes artistas.

Eles sobrevivem trabalhando o máximo possível em três, quatro, cinco, inúmeros palcos por dia e estou falando apenas dos músicos. Imagine a situação da dança, das artes plásticas, do teatro... É uma roleta russa da negociação diária de um cachê, do amor-próprio, do amor pela arte e ainda assim vestir o melhor sorriso, dar o melhor da alma e do coração para pelo menos alimentar estes, enriquecer estes com mais sorrisos, com agradecimentos e abraços. É o mínimo do reconhecimento em um mundo frio e capitalista... Receber calor e incentivo para que o desânimo não tome conta porque ele também não vai pagar as contas.


Os heróis das artes com os dons brilhando nos olhos das pessoas estão aqui para iluminar, mostrar os dons da criação desta aliança entre impalpável, mente, alma e coração. São nossos ídolos fomentando em nós o desejo de sucesso deles criando esta ponte entre o palco e nossos sonhos. Eles nos ajudam a acreditar. Inspirados inspiram nossas inspirações e nos dão aquela vontade de viver mais intensamente. Os artistas do nosso mundo pagam diariamente o preço da escolha que fizeram e nos dão a coragem de escolher o que nos faz bem, mesmo sendo obrigados a acertarem as multas injustas, às vezes com a alma, a música não pode parar. 

sexta-feira, dezembro 09, 2016

Dominação total (miniconto)




por Rafael Belo

A cidade toda acumulava mortalhas. Era uma forma de lembrar não só obviamente seus mortos, mas o peso jogado na vida. Os verdadeiros donos da situação eram ovelhas deficientes deformadas pelos absurdos cometidos livremente pelos seus representantes, estes seriam um bando de porcos orwellianos, mas George Orwell soltaria seus bichos revoltados sobre nós se fizéssemos tal comparação. Então, naquela manhã uma mortalha diferente foi proposta e aprovada por unanimidade com a presença da população. Havia tanto cansaço nos enganados que os enganadores já não tinham mais vergonha.

As mortalhas não vestiriam mais os corpos reprimidos a partir daquele momento. Todos usariam mortalhas adaptadas e a primeira tinha obrigatoriedade imediata de utilização. Funcionários terceirizados já estavam à postos com vendas de pressão feitas de malha de aço medieval. Era como vestir fibras de aço nos olhos e só quem era responsável por vesti-las nos cidadãos sabia a combinação para retirá-las. Sem nem ver o que os atingia o mundo já era tingido de escuridão novamente. Ninguém mais saberia dizer como era a própria imagem.

Aquele peso no olhar esvaziou as ruas. Apenas os porcos, digo, os representantes daqueles cidadãos eram vistos e viam. Claro, que até aquele momento fatídico, todos cometiam suas pequenas corrupções nem que fosse para chegar mais rápido no sinal fechado... Mas, as privações nunca haviam afetado tão diretamente um órgão humano. Estavam todos depressivos e não saiam de casa. Não havia sequer vontade de levantar da cama. O assalto descarado da cidadania era a violenta consequência de várias ausências daquelas pessoas.


Ver apenas a escuridão se tornou um costume como a depressão. As notícias adulteradas tinham o cuidado de chegar ao mundo sem falar da política, sem se vangloriar de nada, mas havia palavras cifradas incitando todos os demais a tramar as privações dos sentidos da sociedade. Em pouco tempo, as mortalhas se espalharam como praga. Não era mais uma cidade cega, agora havia cidades surdas, cidades mudas, cidades inodoras, cidades paraplégicas, cidades tetraplégicas e todo o povo que se achava esperto, malandro, desapareceu. O plano dos enganadores era expandir aquele negócio lucrativo primeiro para países próximos e, então... Bem a ganância sempre quer dominação total com uma vista tranquila para fingir sossego.

quinta-feira, dezembro 08, 2016

Mortalha sobre mortalha



todos os sentidos estão afogados nas ruas
em casa a privação tem malícia e sarcasmo no marasmo pasmo com a cegueira das almas


celeiro das inundações cultivadas na própria palma suja de neutralidade
a cidade grita sua fumaça exigente na furtividade do concreto
todo torto reto é frio à indiferença das metades virando deste contexto jogado fora


olha a hora olha a hora não há tempo para achar o lugar do cansaço nas olheiras de aço intolerante aos atrasos


estou cego por ver tanto descaso descalço caminhando calmo sobre os acidentes diários da imprudência
a previdência fez sua prévia fúnebre adornada dos lamentos lascando o povo com os pagamentos da corrupção


quanta privação é necessária para nos despertar - esta gente proletária - e mandar essa cafajestada para Maracangalha?


sente sentido saindo sozinho pelas deficiências escalando a superação das aparências sem sequer sentir o absolutamente nada

apenas chega ao lado das limitações para seguir vestindo novas mortalhas.



(às 15h53, Rafael Belo, quinta-feira, 8 de dezembro de 2016).

quarta-feira, dezembro 07, 2016

Ninguém viu (miniconto)



por Rafael Belo

Ninguém caminhava pelas ruas àquela hora da manhã. Talvez pela quantidade de carros, talvez pelo clima deserto, provavelmente por ambos. Por isso, quando aquele casal surgiu anonimamente no próprio estilo de escuridão, poucos motoristas prestaram atenção. Todos temos nossas limitações, nossas escuridões, nossas deficiências, mas quem imagina eliminar quem possui deficiências na sociedade atual? Afinal, não somos tribos... Falando deste jeito... Preciso discordar de mim mesmo. Somos tribos e cada vez mais de uma pessoa só.

Algumas pessoas se rendem a escuridão em si e se satisfazem apagando as luzes do mundo. Àquele casal era cego... Andava perigosamente na rua ignorando a cegueira de quem enxerga. Mas, os dois pressentiam uma mudança brusca na já adaptável vida deles. Há quem acredite em intuição e há quem a tenha. Os sentidos de quem é privado de um são altamente apurados para compensar e o ser humano pode ser incrível e terrível. Naquela manhã, ambas as faces da humanidade se chocaram.

Foi um choque capaz de tremer por dentro quem estava próximo. Mas, na pressa poucos prestaram atenção realmente. A reação era robótica, totalmente mecânica e distante: mais um acidente? Espero que ninguém tenha se ferido. Segue em frente... Mas, sim. Houve feridos. Havia uma detestável pessoa responsável pela morte de tantas pessoas com alguma deficiência física. Elas eram consideradas desaparecidas porque esta escuridão ambulante “dava um jeito” nos corpos. Quando ela viu o casal no meio fio, por falta de calçada, andando confiante e tão amoroso com as bengalas – apesar de todos os pesares – ele simplesmente acelerou e viu a imagem dos dois aumentar, aumentar, aumentando, então, o impacto e o vazio.


Não foi o casal com os sentidos apurados atropelado. Aliás, ninguém foi. A mente de uma escuridão ambulante só pode ser distorcida e delirante. Realmente, ela partiu para cima acelerando no maior estardalhaço, mas Ame percebeu antes e sem pensar muito jogo seu Jeep, alguns metros antes do casal, na lateral daquele Sport com o objetivo tão repugnante. A motorista Hate foi arremessada na parede da fábrica e já se misturava ao frio da lataria frágil antes de toda a fábrica desmoronar. Ninguém viu onde foi parar o casal.

terça-feira, dezembro 06, 2016

arrebentar




falta de verdade a insanidade de enfrentar o fluxo
ver o luxo no lusco fusco de estar com as mãos no chão
vestir a coragem feita uma capa de herói para ir na contramão

não esperar o sinal abrir amarelar fechar continuar sonhando
andando encarando o horizonte nos olhos trazendo o amanhã nas mãos
ser são subitamente ao abrir os braços preenchendo todos os espaços com a própria presença

circulados de ventos para soar tempestades de gentes
ranger os dentes em um sorriso permanente tão quente
transformando cada limitação nossa em uma visão de superação

abra bem os ouvidos use todos os sentidos há necessidade de se importar
tomar goles do puro ar da Liberdade e todas as correntes arrebentar.

(às 10h43, Rafael Belo, terça-feira, 06 de dezembro de 2016)

segunda-feira, dezembro 05, 2016

Falta de verdade



por Rafael Belo

Foi um flash. Mais carros indo a toda velocidade em plena manhã de sábado e um casal de meia idade - ela morena, ele não – caminhavam na rua. É na rua! Um apoiava no outro em um meio abraço protetor. Não entendi a dinâmica possível ali, mas era óbvio ser uma prática constante o resultado daquela sincronia incrível. Ambos eram deficientes visuais e portavam bengalas brancas flexíveis tocando para todo lado o chão irregular. Os olhos deles estavam naquele movimento plástico e constante. Infelizmente a sensação, ao mesmo tempo de triunfo pela independência, era de indignação e medo por eles.

Segui com um olho à frente e outro no retrovisor. As calçadas sem piso tátil, irregulares, curtas em contraste com ruas largas esburacadas só demonstravam - e demonstram - o quanto a cidade cresce vergonhosamente para os veículos, para os prédios, para o fluxo de veículos e reduz os espaços para as pessoas. Não se fala de transportes capazes de agilizar e facilitar a vida dos cidadãos esmagados por motoristas mal educados, egoístas e com uma prática assustadora no trânsito. São só tarifas aumentando e limitando os direitos de todos. Aquele casal superava as deficiências do corpo e da cidade.

O fato simples de caminhar durante uma manhã, pensando bem, é cheio de limitações para nós que na pressa acabamos cegos e apenas desviamos dos obstáculos, olhamos para o outro lado e seguimos fazendo as mesmas coisas, reclamando dos antigos problemas, passando pelo caminho de ontem, hoje e amanhã empurrando a vida para o próximo dia mecanicamente conectados a rotina rezando para a sexta-feira chegar. Mais dos mesmos diariamente ignorando a própria limitação de reconhecer a olimpíada imposta pela cidade para superar fazendo alguma coisa.


Fico entre orgulhoso e pesaroso sem conseguir retirar da mente a imagem do casal com deficiência visual vivendo do apoio mútuo e sofrendo as consequências da cidade enfrentando em pé e de cabeça erguida, simultaneamente, o presente e o porvir na contramão do fluxo ignorante de veículos lotados de, praticamente, uma pessoa cada. Os vejo vir e depois continuar corajosos enxergando a vida com as mãos, os pés, o nariz e, principalmente, os ouvidos como nosso ser visual pouco ou nada entende. Fico lembrando que ainda vamos todos enxergar porque é preciso se privar para realmente compreender o que faz falta de verdade.

sexta-feira, dezembro 02, 2016

Outras formas (miniconto)




por Rafael Belo

Maritah corria pela vida. Ao redor a morte a cercava. Ela descia as escadas enquanto os muros desabavam e ofegante não podia parar. Já tinha até se esquecido dos motivos que a levaram até aquele terraço. Ela se sentia o próprio edifício, mas porque eram precisos 200 andares com praticamente 1000 metros... Mas, com o nome de The Kingdom Tower era de se esperar... Torre do Reino... Tudo isso acontecendo daqui a quatro anos sem nem imaginar estar na Arábia Saudita.

Aquele 1 km descendo não devia ser nada para Maritah. Ela era maratonista, mantinha a boa forma, corria de manhã e à noite. Eram quilômetros e quilômetros na esteira e sempre que possível repetia a travessia pela cidade, de uma ponta a outra, sem nem perceber. Maritah era como as outras pessoas... Procurava formas de ser forte e evitava expor as fragilidades e, uma hora ou outra, acabaria acontecendo uma implosão. Ela não acreditava em psicólogos e em falar, só em agir, em fazer, em se destacar... Mas tudo muda tão “de repente”.

Não queria estar sozinha. Ah, Maritah... Tão teimosa! Há tantas frustrações em conflito com as conquistas... Não falar do assunto é o mesmo que... Eu plantei tudo e, infelizmente, à noite o teto me mostrava o cultivo de sucesso. Ainda sem colher, aquelas frutas amadureciam e caiam sem estragar, mas me estragavam... Estragam. Quis chegar as nuvens com bagagem demais... Óbvio que cairia... Não! Não! Não! Não! Não! Eu assumo minhas fragilidades! Sou um ser humano frágil e a mesma fragilidade me faz forte.

Não deveria estar cansada. Vou ter que assumir que é psicológico, meu coração não deveria estar tropeçando, mas trotando como um cavalo livre em seu próprio campo aberto. Preciso chegar ao chão... De elevador levaria alguns segundos, mas não teria graça... Não me importaria de ser sem graça por um dia... Quem instala escadas em uma torre/residência deste tamanho? Que ideia heim! Que ideia! ... Mas estou me referindo a mim ou aos construtores, ao arquiteto ou ao Criador...? Ninguém me obrigou a estar aqui girando nestas espirais e estes detestáveis degraus iguais... Ah, o chão! Só vou deitar um pouquinho... Não tenho que me afastar pelo menos dois quilômetros?... Mas é uma implosão não um desabamento... Vou me afastar mesmo assim, há outras formas de chegar às nuvens.

quinta-feira, dezembro 01, 2016

Só se



não há muros entre nós estamos expostos e desatados
a fragilidade tão minha também é sua onde não há fortalezas

a pele da raposa foi vendida as uvas pisadas pela vida

vamos pelo tempo acelerando os minutos atrasando envolvimentos
desastrados momentos quebrando detalhadamente certezas

com as mãos de tantos quais digitais somos nós?

falhas se revelam futuros acertos nos tropeços passados hoje a nos equilibrar
somos imperfeitos feitos das nossas ações perfeitos sujeitos da criação a se criar
efeitos da reação das rachaduras rindo regularmente no rosto

só se saborearmos o experimentar saberemos o gosto.


(às 07h04, Rafael Belo, quinta feira, 1º de dezembro de 2016)