segunda-feira, novembro 02, 2015

O tenor do ônibus


Ele tocava com seu aspecto sujo, seu rasta, sua voz raspada e ao mesmo tempo limpa ocupando todo o ônibus, mas seu rosto não tinha nenhum pelo. Um domingo destes onde a nação roqueira ocupava o Autódromo de Interlagos e se hospedava na região. Estava em pé na porta se equilibrando enquanto tocava o violão e cantava um reggae gospel capaz de silenciar todos.

Um ar leve dominado pela música dele. Todas as atenções, quando não estavam de olhos nele, estavam naquela música do jovem. Outros violões estavam com seus donos sentados pelo coletivo. Como eu, o olhavam com ar de satisfação e ao mesmo tempo de “a qualquer momento me junto a ti”.

Com ele uma mochila pequena e aparentemente com pouquíssimas coisas. As pessoas tinham vergonha de interromper aquele show ininterrupto e tão paulistano para um domingo de manhã. Afinado e intenso talvez não fosse o tema cantado tocando as pessoas. Abraão, Jesus, os apóstolos... Velho e Novo Testamento celebrado na voz de um hippie.

Mas era a alma imposta(da) em cada tom, nas frases de coração, aliás de peito, de cabeça... O tenor do ônibus, morador de qualquer lugar mudando a manhã de tanta gente, empunhava música para todos. Não era porque estávamos em um domingo que o coletivo não estava lotado e justamente por isso, ouvir, sentir aquilo era um alívio.


Quando a música agradeceu e desceu, pouco antes do Parque Ibirapuera, a mensagem parece ter ficado, pois as pessoas permaneciam caladas com os olhos brilhando e um sorriso de esperança nos lábios.

domingo, novembro 01, 2015

O universo Millennium (resenha)


Há sete anos corria para a livraria em busca de Os Homens que não amavam as mulheres e o sueco Stieg Larsson me pintava o bom e velho jornalismo com o jornalista Mikael Blomvist e a impressionante hacker Libesth Salander. A história começava devagar, mas logo ficava impossível parar de ler. No ano seguinte lia A Menina que brincava com fogo e por fim (achava eu) A Rainha do Castelo de Ar.

A Trilogia Millennium chegava ao fim, mas o universo de Larsson permanecia. Órfãos da saga tinham certeza do fim porque Stieg morrera em 2004, antes de ver sua obra chegar aos 80 milhões de livros vendidos, e sua companheira estava impedida de dar continuidade a série pela justiça. Ela tem os manuscritos originais da continuação... Por isso, receei antes de comprar O que não nos mata ou, a tradução brasileira, A Garota na Teia de Aranha.
Mas, comprei e mesmo não estando à altura do original, o novo autor da série, David Lagercrantz, conseguiu ainda que os manuscritos tenham sido ignorados. Até porque não teria como ele passar o sentimento e o ambiente de Larsson. Larsson presenciou aos 15 anos um estupro coletivo sem nunca se perdoar por nada ter feito pela jovem chamava (vejam só) Lisbeth.

Ciência, jornalismo, tecnologia, traição, espionagem, muito mistério e o aparecimento de Camilla “a gêmea má” Salander nos faz mergulhar de cabeça novamente na revista Millennium mais uma vez a beira do fim dependendo de uma grande reportagem de Mikael para se manter e sair do ganancioso grupo querendo a transformar em mais uma revista de fofocas.

Enquanto Lisbeth aparece (com outro nome) conectada ao gênio Frans Balder. É de prender o fôlego até o fim com assassinatos e a beleza fatal de Camilla herdeira do império criminoso de Zala. A violência contra a mulher segue denunciada presente na ex-esposa de Balder, Hanna que vive torturada pelo ex-ator Roger e você acha que Lisbeth vai deixar barato?

Ed the Ned caça Lisbeth simplesmente por ela ter invadido a maior inteligência do mundo, a NSA. Neste livro tudo vai depender do autista savant August Balder que presencia um assassinato e é um gênio em pintura e matemática. Com o surgimento de Camilla com certeza teremos mais de Lisbeth e Mikael e quem sabe um dia leremos os originais deixados por Larsson. Vá lá, dê uma chance para David e o quarto volume da consagrada série Millennium.
*
Pag. 560
Ed. Companhia das Letras

Ano 2015
*

sexta-feira, outubro 30, 2015

Perda de si (final)


Corri e todos corriam mais até que o sol correu um terço do céu. Ninguém se aguentava e da mesma forma o vazio mental não permitia uma explicação para a correria. Olhavam para seus reflexos no lago onde agora estavam antes mesmo de matarem a sede. Não ventava. A água límpida refletia o céu de brigadeiro. O espelho natural de narciso nada significava para eles, pude perceber de imediato.

Começaram a medir os rostos uns dos outros e aqui estamos nós a maior multidão de anônimos que já existiu.  – O que foi que aconteceu? Foi a primeira sentença dita por todos eles ao mesmo tempo. Depois riram incontrolavelmente. Risadas nervosas, finalmente revelando uma situação assustadora. Mas, eles não estavam assustados de verdade e nem eu...!

Os relatos e as buscas minuciosas apontam a ausência de qualquer tipo de documentos de identificação. Nem sequer menção de qualquer fato capaz de nos dar uma pista aparecia nas buscas virtuais e, o mais estranho, não existiam mídias digitais. Se bem... Bem eu não conhecia nenhuma, mas tenho certeza... A humanidade confundia quem era, entre outras coisas... Será uma lembrança?

Estamos nós aqui. Um amontoado de alguém pensando ser ninguém. Sem sequer uma alma para mandar em nós, com vontade de nos moldar... Não há nada somado com coisa nenhuma, zero de informações, só animais... Retomando o mundo. Seria algo entre eles e nós? Qual ano estamos? Quem somos nós?


O medo se foi com a identidade de cada um e os animais também pareciam não o ter mais, aliás estavam nos ignorando dolorosamente.... Olhando bem eram realmente belos milagres de Deus. Deus? Uma oração de agradecimento surgiu em minha mente, fechei os olhos um instante e no seguinte o abri. Por que todos me imitavam? Fechei os olhos novamente e segui pensando que nem sempre perder a si é ruim.

quinta-feira, outubro 29, 2015

espremendo



Mudam muitas murchas nuvens no horizonte
adentram meus olhos ao hesitante defronte
onde sorrisos se espalham perdidos em instantes


trovejando ecos no peito na névoa da vazão
cobrindo o labirinto da razão com corado coração

materializando milagres movidos a manifestação

mareando navegantes caminhando sobre as próprias águas

marejando o lacrimejante olhar viajante
chorando chuva concomitante coexistindo
paralelamente com outros indivisíveis simultâneos
na lágrima caída acordada com a chuva escorrida
das nuvens apertadas em minhas mãos que sonham.


(Às 22h01, Rafael Belo, quarta, 28 de outubro de 2015)

quarta-feira, outubro 28, 2015

Perda de si (parte 2)


Bati em uma superfície que fez som de passagem, fui me escorando até encontrar algo gelado, forcei para baixo e me apoiando a parede senti um lugar mais amplo... Agora me olhava no espelho. Não sabia meu próprio nome ou onde estava. Por algum motivo não me importava nem precisaria... Reinventar-me?

Acabara de nascer. (Antigamente se diria algo como milagre).

Sai às ruas e não havia ninguém. Estava tudo aberto, porém vazio. Nada de nomes. Nada era nomeado mais. Foi um dia? Acreditava ser sim a resposta. Vi milhares de animais... – Eles já estavam ali? Pareciam todos colocando algo na boca e senti como se por dentro eu imitasse aquele gesto e um rugido(?) surgiu. – Estou com fome?

Aos poucos percebi: os nomes próprios tinham sido varridos de toda parte. Não existiam fachadas, placas ou números nem em ruas nem em estátuas. Sem qualquer tipo de identificação ou localização... Teria acontecido, qual a palavra mesmo? Co... co... Colapso. Social ou total?  Estava cansado de andar. Senti, uma comoção nos animais. Algo estava prestes a acontecer.

Como se fosse sincronizado, ou melhor, combinado incontáveis pessoas começaram a surgir olhando para todos os lados. Típicas características dos perdidos. Não é? Senti um buraco me sugar para dentro de mim. Estava frio e tenso assim que percebi para onde eles iam com pressa. Todos vinham em minha direção. Ouvi um grito. Você tem que correr e mesmo cansado corri e corri e...


(Continua... última parte na sexta-feira) .

terça-feira, outubro 27, 2015

pousada


A todo momento bebemos águas diferentes
sem sabores sutis somente a intensidade da vida
transbordando sons e silêncios suavemente exigentes
posturas prontas prometendo delicadas descidas
dedicadas às passadas formas evidentes de ser vidente

voando várias visões em pensamentos de partidas
nas chegadas interrompidas pelas palavras em correntes
sopradas suavemente sob a pele adormecida
aquecida arrepiada na eterna alvorada permanente
onde revoadas de milagres pousam na gente.

(às 19h21, Rafael Belo, segunda, 26 de outubro de 2015)

segunda-feira, outubro 26, 2015

A todo momento


Os fins de semana nunca são comuns. Ao menos é a nossa esperança. Nem que seja necessário apenas para repor as energias, ter um tempo para nós mesmos e para quem amamos ou simplesmente já ser clichê desejar a sua vinda e seu prolongamento. Segunda-feira só é maltratada por isso, mas quero falar de sábado à noite.

Já canta Toni Garrido (Cidade Negra) e Lulu (Santos) que “todo mundo espera alguma coisa de um sábado à noite, bem no fundo todo mundo quer zoar, todo mundo sonha em ter uma vida boa, sábado à noite tudo pode mudar”. Tinha planos de casal em ação. Olhei para todos os lados e não havia ninguém, quando antes de atravessar a via um morador de rua me parou.

Encarava-me com seus olhos límpidos e azuis. É bom lembrar que a sensação térmica estava entre 13º e 14º, mas ele não tremia. Contava sua vida, do preconceito das pessoas com moradores de ruas e da sina terrível que é morar na rua – sina esta pesando também sob o filho dele. Enfatizou muito que não bebia. Várias vezes o disse e ele não fedia nem a ausência de banho.

Barbado, sincero e sorridente – vestindo um boné, roupas limpas, porém puídas e um mochila pequena de pano mostarda envelhecido - apenas me pediu para comprar algo para ele comer. Pedi para esperar, atravessei a rua e enquanto comprava uma pizza olhei novamente para toda parte e não o vi. Desatravessei a rua ainda o procurando só o vi depois de o escutar. “Não me viu é?”, perguntou rindo de mim. Não, não o tinha visto...


Não sei se fui eu quem o alimentou ou ao contrário, mas ele me agradeceu, apertou enfaticamente minha mão, perguntou meu nome (mas não disse o dele, mesmo eu me sentido familiarizado e que realmente o conhecia), o que eu estudava, me desejou coisas boas em diversas áreas, além de falar do poder de Deus em minha vida e depois foi embora fisicamente sem sair até agora dos meus pensamentos, afinal milagres acontecem a todo momento sem percebermos.

domingo, outubro 25, 2015

Desenterrando o gigante (resenha)


Uma década de vida faz de uvas vinho do melhor quando se trata de um grande escritor, Kazuo Ishiguro acordou o Gigante Enterrado com uma antiga árvore sem folhas na linda capa azul espalhando esta cor para as laterais das páginas que nos encanta do início ao fim de seu belo romance fazendo com que Axl, Beatrice, Horácio, Sir Gawain, Edwin e Wistan façam parte instantaneamente das nossas vidas.

Já é um dos melhores livros que li na vida penetrando nas sua mente nas primeiras frases: “Você teria que procurar por muito tempo para encontrar algo parecido com as veredas sinuosas ou os prados tranquilos pelos quais a Inglaterra mais tarde se tornaria célebre.” Kazuo pega nas nossas mãos como um amigo querido nos levando a acompanhar a saga do casal de idosos e a importância do esquecimento.

Uma terra pós Rei Arthur onde seu sobrinho, Sir Gawain, é um velho cavaleiro de armadura cavalgando em Horácio seu fiel amigo. Vamos nos embrenhando nesta névoa magnífica levando as lembranças desta era medieval onde o agora é vivido aos tropeços em uma trama escrita como histórica (e vai ficar para a história) onde a dragoa Querig é temida e crucial neste enredo.

Qual o verdadeiro papel do cavaleiro e do estrangeiro guerreiro Wistan? Este fantástico romance quase nos torna o barqueiro e sua função de atravessar o rio e o mar recheado de amor, amizade e valores. Uma coisa é certa, sobre esta obra-prima: é impossível tirar narrativa e personagens da cabeça e igualmente improvável querer terminar a leitura. A vontade é nunca parar de ler O Gigante Enterrado.

Se fosse você daria um jeito de ler este livro agora porque tudo o que quero é lê-lo novamente.

(*)
·        Autor: Kazuo Ishiguro
·        Livro: O gigante enterrado
·        Copyright 2015
·        Título: original The Buried Giant
·        Capa: Pedro Kastro
·        Tradução: Sonia Moreira
·        Ficção inglesa – Escritores japoneses
·        Editora: Companhia das Letras

·        396 páginas
(*)

sexta-feira, outubro 23, 2015

Não há retornos


Andar em São Paulo não é fácil. Também não é difícil. Certo, certo é contraditório. Se você se informar bem, planejar seus roteiros, confirmar as informações levantadas e não confiar em qualquer rota do Waze (que aliás não tem culpa da nossa “inocência”) você chega em qualquer lugar. Mas, é interessante perguntar as direções e receber inúmeras respostas.

Elas vão do local exato até o básico medo de responder e aquela balançada de cabeça leste/oeste perturbada, desconfiada e com um leve “me deixe em paz”. Sem segurança alguma você segue pelo labirinto paulistano. Se hoje poucos jornalistas cumprem seu papel de consultar diversas fontes, imagine quem tem piso salarial?

Já me perdi tanto e perguntei em dobro em São Paulo. Entendi que as pessoas só conhecem a própria rota e olhe lá, um desvio pode custar horas sem um retorno porque se há um lugar onde seguir é obrigatório ser em frente é aqui. Tirando a Avenida Paulista não há muitas linhas retas por aí, então em frente é sinônimo de muitos desvios.


Mas não retornos... Porque querendo ou não, não há volta e para não ficarmos dando voltas até tontearmos em nós mesmo... Só há o adiante, a próxima chance e se não soubermos conquistar precisamos aprender urgente mesmo sendo herdeiros, coisas materiais tem prazo de validade, nós também e as respostas que obtemos fazem nossas direções.

quinta-feira, outubro 22, 2015

Tombam


Olho pela primavera para a janela
onde estão as flores? O que fizemos com o amanhã dos senhores? a idade não caminha tranquila pela manhã

a cidade pede retornos e recebe em silêncio manha
pode ser esquecida a atrocidade que nos apanha?

outubro está em outra estação
não há como nada ser normal
o calor pode chover pode florir esfriar e cair seco como o desprezo pelas árvores que tombam sem produzir som

não há nada igual mas queremos olhar a situação pela primavera e ver a idade voltar pulando a janela com flores nas mãos.


(às 15h54, quarta, 21 de outubro de 2015, Rafael Belo)

quarta-feira, outubro 21, 2015

Perda de si (parte 1)


Se pudesse ao menos enxergar... Caso houvesse grau para definir a densidade da escuridão esta seria a máxima, mas o pior é a sensação de perda e vazio gritando. Nada era conhecido... Diversas palavras levemente vagas rodavam na mente, porém não se fixavam a definição a qual pertenciam fosse vivo ou não. Não parecia haver retorno algum e não sentia vontade de retornar.

Chegando ao local de tirar o desaperto havia algo repetindo tudo o que fazia, mas não havia o estranhamento de nada, não era desconhecimento era... Falta de identificação. Fora desconectado de tudo... Inclusive... Daquela... – Desta imagem... – Este sou eu?, se perguntava, ou perguntava ao espelho, trocando o peso do corpo de uma perna para outra.

- Quem sou eu? Foi minha segunda pergunta depois viria onde estou... Enquanto passava pelo próprio interrogatório me distanciava para tentar compreender como poderia pensar e o máximo que consegui recordar foi de alguns instantes. Quando abri os olhos não havia nada, zero... Ouvia apenas a respiração... Se não fosse involuntária estaria respirando?

Os batimentos cardíacos ecoavam em meus ouvidos. Não havia pensamentos, palavras nem necessidade deles. Aos poucos teto-parede-janela-escuridão-maciez-cama se formavam na mente palavra e imagem, mas... Mas se apontassem uma cadeira e dissessem “é uma cortina”, cortina seria.


Sentando com a cabeça pesada fazendo um oito no ar a procura de equilíbrio, caiu de joelhos, se arrastou começou a engatinhar. (c0ntinua...)

terça-feira, outubro 20, 2015

companhia

acompanham-me as manhãs em um tempo que não sei definir
elas podem ser noite de repente e às vezes tanto resistir
parecendo uma ausência em mim embaralhando o dia
com cartadas de diferentes baralhos em mãos a sorrir
depois a meteorologia prevê a chuva no sol e a pele na brisa arrepia

não é mais inverno e na primavera as flores não querem cair
mas caem e forram o chão com emoção na ventania

outubro já chama novembro e corre o risco de se repetir
e se repetir fosse trazer um encontro de quem fomos e quem seremos o que a gente hoje faria?
como sou um só na coletividade acabaria começando a surgir viraria cinzas e renasceria
sem procurar retornos para frente é companhia

(às 10h50, Rafael Belo, terça, 20 de outubro de 2015)

sexta-feira, junho 26, 2015

Os estágios de Estela



por Rafael Belo

Friamente o médico a chamou e disse: - Você vai morrer no máximo em 12 horas! Se tiver sorte...

Estela olhava para todos os lados e sorria. Algo parecido com estado de choque e incompreensão. Afinal, quem quer entender que vai morrer, assim, de repente? Não queremos nem pensar na naturalidade do fim da vida... – Como assim? Morrer? Em menos de um dia... Não! Eu não posso morrer... Você é desumano...! Foram as últimas palavras que Estela dirigia a alguém. Ela correu sem saber todo o diagnóstico.

A bactéria Clostridium Perfingens faz com que derretemos devagar. Como a Bruxa do Oeste do Mágico de Oz ou, melhor, uma vela. A Bruxa derreteu muito rápido... A infecção causada pela perfingens produz toxinas e interrompe o fluxo sanguíneo do local... O Tratamento é a amputação, mas o médico acreditava que já era tarde e a infecção era generalizada, por isso tanta dor em Estela.

Na verdade, ela já tinha a perfingens há anos desde que se feriu na praia em um caco de vidro sem nem sequer tratar direito. Mas, como vive na sujeira e se torna um esporo praticamente indestrutível, a bactéria escolhe quando se tornar um parasita e já havia bilhões nela quietinhas... Estela correu para seu ponto preferido da cidade. Estava lá só e durante uma longa hora comparada a uma vida inteira negou estar doente, mas, por via das dúvidas, decidiu tirar seus sonhos da fila, afinal ela tinha direito.

Ainda eram 8h e agora ela sentia muita raiva. - Não vou morrer em uma sexta-feira sem aproveitar o fim de semana. Deveria ser aquela vizinha insuportável com aquelas músicas horríveis para até surdo ouvir... Por que eu? Eu que sempre fiz tudo direito vou morrer...? Não demorou muito ela tentava trocar com Jesus, Deus, Buda, Jah, Natureza e todas as seitas e religiões possíveis. Se eu dedicar meus próximos 15 anos a caridade e ausência de julgamento eu poderia viver? Juro que faço doação da metade do meu salário?

Então, veio o choro compulsivo e convulsivo. Ela tremia, se abraçava... Estava encharcada... Ligou o celular e passou quase oito horas conversando com todos da sua lista de familiares e amigos. Contou da sua dor e pediu perdão foi quando tomou consciência que poderia descobrir a vida após a morte. Deitou com o caminho obstruído pelas folhas e adormeceu.

Acordou tremendo de frio, olhou o relógio e a raiva voltou. – Eu mato aquele médico! Mas, lembrou onde estava, respirou fundo e pensou: tenho que estar feliz por estar viva, certo?... A raiva foi embora (temporariamente) e Estela começava mais um novo estágio.

quinta-feira, junho 25, 2015

permanentes



As peças caem umas sobre as outras
ostras que deveriam se abrir e se fecham
testam a dolorida dor da queda em fila

ensina inevitavelmente o efeito dominó
pó acumulado exagerando o mundo

no fundo da poeira estamos à beira
de um abismo de luz pulsante

e na falta de cidadania deixamos de ser cidadãos em um instante

distantes de Amar a si e ao próximo no ócio de faltas somatórias
divisórias chorando direito sobre direitos da cegueira provisória.

(às 12h29, Rafael Belo, quinta-feira, 25 de junho de 2015)

quarta-feira, junho 24, 2015

Senha e vez


por Rafael Belo

Chovia como se chuva fosse esperada a cada amanhecer e anoitecer. Mesmo assim as pessoas estavam na fila esperando serem atendidas e resolverem seu atual desemprego. Indignado pela situação, Seu Severino esbravejava. Estava encharcado, apesar do guarda-chuva... – A senhora acha que isso é direto? Ixi Maria é um desrespeito!

A tal senhora, sem querer alimentar uma discussão, só deixou entender estar concordando. A gente trabalha feito doido a vida toda para ser dispensado com desculpas?, pensava Severino, tratam a gente feito bicho e os nossos direitos? Ele nem sabia quais eram, mas sabia da existência deles. Era um bom passo, mas “cabra macho” que era não pedia informação.

Quebrava as paredes, furava canos, queimava chuveiros, destruía tevês, micro-ondas, celulares e nunca acertava. Recusava ajuda e assumir seu erro. Era sempre “esse trem mal feito”. Lá estava Severino desde a madrugada, o primeiro da fila. Com a carteira de trabalho em mãos pensava em quanto valiam seus direitos e quais eram afinal?


Mais uma injustiça. Sempre fui ótimo motorista, por isso fui recomendado para trabalhar nessa cooperativa de táxi. Mapa? GPS? Eu sou o cabra da peste mais bem orientado que já se ouviu falar. Que culpa tenho eu se o meu caminho era mais longo e eles acompanharam meu trajeto pelo tal de transmissor? Quero meus direitos já! E ficou se molhando esperando a sua senha e vez imaginando um sol que poderia aparecer.

terça-feira, junho 23, 2015

destros



Fale direito na direita da Rua Direita
em qualquer direção da Sé veja as diversas facetas da fé
lado a lado com o paralelo do labirinto das informações

as migalhas dos direitos estão perdidas nos mendigos em contemplações
a vida como poderia ser não é

e os dedos apontam culpados em todas as direções

turistas nativos no espelho das divagações girando em pé
olham abobados para onde deveriam ir e não vão, presos nos vão
maré de gente se achando esperta mas tão inocente recebendo cafuné
outras tantas ondas se misturando para não perguntar e se perdem na falta d’água deste mar.

(às 13h41, Rafael Belo, 23 de junho de 2015, terça-feira)

segunda-feira, junho 22, 2015

Quase fui



por Rafael Belo

No fim de uma fila imensa uma humilde senhorinha esperava. Isolada, com o também idoso marido, ninguém perguntava nada nem parecia se importar. Depois de dezenas de anos trabalhando a deixavam na mentira e ignorância. Primeiro entrou na fila para exigir o direito da poltrona reservada para idosos em viagens intermunicipais, então inventaram uma história de ter que solicitar com meses de antecedência e depois negaram que havia alguma. Foi quando voltou a entrar na fila...

O Estatuto do Idoso deixa claro que toda pessoa com idade mínima de 60 anos com renda igual ou inferior a dois salários mínimo pode exigir este direito também garantido pela lei 10.741/2013. Caso o ônibus esteja lotado é possível comprar passagem com 50% do valor. Ainda reforçam a garantia o Decreto nº 5.934/2006 e a Resolução ANTT (Agência Nacional de Transporte Terrestre).

Nós vivemos nestas filas desorganizadas e desumanas tendo de exigir nossos direitos (se soubermos). Um tremendo desrespeito que parece piorar se chegamos aos 60. Certas pessoas parecem viver da necessidade de desinformar, ou simplesmente ser mal-intencionado. Refletem o caráter ou a ignorância com extrema eficácia e, muitos, dos apressados nas filas nem querem saber do direito do outro e acabam por ajudar a negá-lo.

Hoje mesmo, em plena Praça da República, pude reparar nas divergência das pessoas no movimentando inverno paulistano. Enquanto esperava e intercalava uma página lida com uma olhadela ao meu redor, diversas pessoas vieram pedir informação sobre locais e vi nos olhos e expressões corporais de outros a vontade de desinformar e se aproveitar da situação, principalmente, quando uma adolescente veio me perguntar a localização de uma agência bancária...


Fui cumprimentado por um grupo de roqueiros em busca da Galeria do Rock trajando fielmente os panos do heavy metal do Iron Maiden. Idosos, idosas e mulheres também me pediram localizações. Quando sabia indicava com todas as referências, quando não... Você se pergunta o motivo de eu tocar neste assunto? Bem, a poucos passos de onde eu estava (em frente ao metrô) existe um Centro de Informação ao Turista... Quase fui até lá perguntar o porquê, mas bem na hora minhas companhias chegaram.

sexta-feira, junho 19, 2015

Prisão coletiva



por Rafael Belo

Luanna saiu sem rumo exatamente como se sentia. “Esqueceu” o celular de propósito onde todos em casa podiam ver. Estava no ônibus com o itinerário mais longo da cidade. Saiu do extremo da zona norte de São Paulo para o mais distante ponto da zona sul.  Precisava pensar sem ninguém dizer o que nem como, muito menos rondando o tempo todo.

Cercando perguntando. Maldita sociedade hipócrita, pensava Luanna, cuidam da vida de todo mundo só pensar em investir em melhorar e qual a finalidade? Ela estava há um ano na cidade que mais produzia dinheiro para o Brasil... Todo mundo correndo o tempo todo para dar tempo e... Ninguém tem tempo para nada... Decerto não querem pensar de verdade no que estão se tornando, concluiu balançando a cabeça lentamente.

Luanna tinha recém completos 20 e poucos anos. Suas melhores companhias eram os livros, Salomé e Lou - respectivamente sua gata e seu cachorro. Cada leitura a fazia crescer e assim se sentir menos dentro de tantos universos, já seus animais mostravam o oposto da vida humana. Eles eram incondicionais, só precisavam de carinho, água, alimento e curtos passeios.

Qual eram os objetivos delas e das demais pessoas? Juntar dinheiro, rejuvenescer, viver até não poder mais e rezar para ir para o céu?, negava com tanta força que as pessoas já a olhavam. Luanna queria mesmo não precisar de dinheiro e nem de tanta poluição na cidade com tantos contrastes.

Pensava em como seria bom se a moeda de troca fosse as habilidades de cada um, prestação de serviço... Gostaria de ter nascido em outra geração quando havia motivos mais heroicos para lutar, principalmente pela liberdade e agora? Lutamos para continuar lutando...  Estamos sem rumo. Sem rumo seguiu e nem tinha saído da zona norte ainda. Entrava na coletiva prisão.

quinta-feira, junho 18, 2015

errar o alvo



cai a depressão bem no meio da preguiça
arisca na moleza de rosnando se encolher
lentamente domina o sofá aterroriza
anonimamente escolhe as sombras para desaparecer

engole a gula voraz com olhos de cólera
medica sua inveja tarja preta com orgulho
se apega a avareza com toda luxúria inglória
espreguiça todo o casual vestido de embrulho

assumo o motivo extensivo do espalhar da cárie
omissa ao sorrir o esquecer da glória não estou seguro
em cercados com o desencadear do segundo evito pecare

estou de baixo a médio imaginando o assédio em sete pecados.


(às 23h21, Rafael Belo, quarta-feira, 17 de junho de 2015)

quarta-feira, junho 17, 2015

Revelações em tintas



por Rafael Belo

Fazia algum tempo que um som repetitivo chegava distante até o seu ouvido. Ele já tinha perdido a noção das horas, mas ainda tentava navegar naquele barco salva-vidas pintado de cinza no alto-mar condensando exatamente a variação do tom azul para o esverdeado enquanto o sol nascia gemado rodeado das estrelas da noite sucumbindo. Do outro lado...

Uma tempestade fazia a noite permanecer e criava um contraste trazendo algo de reconhecimento na mente de Aurélio Abel. O barco estava vazio assediado por ventos vindouros por sua vez criando ondas ainda distantes, mas futuramente responsáveis pela virada do barco antes da chegada do novo amanhecer. Estava em transe sorrindo para aquele quadro tão real...

Ele era o barco. Ele estava vazio. Seria responsável pela tempestade chovendo noite de um lado? Poderia conquistar aquelas cores presenteadas por um novo amanhecer? Quem sabe se tornaria aquele vento capaz de mudar até o meio do alto-mar formando uma onda gigantesca capaz de virar uma vida... Também havia outra sensação emoldurada ali.

Era liberdade. Nada mais de assédios nem da obrigação de escolher entre vontade, necessidade, fantasia e realidade... Então, se virou para o “chefe” berrando seu nome e mais uma vez o humilhando. Só de encarar pela primeira vez o “chefe”, aliás diretor o silêncio veio. Olhou o quadro triunfante balançando a cabeça como se concordasse com um amigo. Falou calmamente a palavra processo puxou dois “amigos testemunhas”, mas antes voltou para a sala do seu ex-diretor e pegou o quadro: - Esta é parte da indenização, depois seguiu cantarolando.