quinta-feira, abril 16, 2015

No canto da reflexão


No canto do espelho uma bota no rosto e depois um joelho
para virar cara na próxima situação
objeto que reflete mostra a ditadura da representação

há tantos pedaços aparentes a insistir não sermos inteiros
nos tornando dependentes de uma busca sem razão
quanta aparência esconde o autorretrato da manipulação?

a mente projeta nossa imagem mas basta um banho ligeiro
para o chuveiro nos conter na falta de imaginação
flexiona os joelhos se perde nos espelho reflexão

sabe só seu passarinho sair do ninho sozinho sem superfície reflexiva na flexão de estar todo ali flexível de olho na imensidão.


(às 06h38, Rafael Belo, quarta-feira, 15 de abril de 2015)

quarta-feira, abril 15, 2015

(Re)apresentação


por Rafael Belo

Todos parados. Prado conseguiu este último registro, esta última imagem antes de parar também. Mas, enquanto todos estavam se movimentando lentamente em frente a espelhos, televisões desligadas, telas de computador sem funcionar, celulares sem bateria e qualquer superfície reflexiva, Prado observava a própria sombra. Claro, se você não estivesse prestando muita atenção não saberia de nenhum movimento naquela parada.

Em comum àquela suposta paradeira havia a luz. Sem luz não há sombra... Prado passou a perseguir a própria sombra, mas demorou anos em outros espelhos e contornos atrapalhando a projeção de lâmpadas e do sol, para ir atrás da própria. Então, era comum andar de costas dependendo do horário do dia e da direção a caminhar.

Mas sombras passageiras o despertaram e Prado passou a parar em outra perseguição... Perseguia sombras de nuvens. Talvez (não!) a vontade e a fé não sejam o suficiente para quem foi tão fundo na superfície do espelho porque não deve haver maior façanha... Lá vai Prado correndo atrás de sombras de nuvens... São tantos Prados correndo...


Nem parece mais um parado. “Olha só os dos celulares ergueram as cabeças”, pensou Prado, “Como conseguiram bateria...?. Mas era só para mais um autorretrato tão antigo quanto à pedra lascada... Antes de partir Prado pensou: “Se todos estes autorreflexos se partirem nem dará tempo para reflexão... Quem sabe não seja esta a ideia”, foi tudo feito balançando lentamente a cabeça antes de parar de vez sem se encarar diante da imagem da sua representação.

terça-feira, abril 14, 2015

Antirreflexo


não há reflexo que nos prenda se não for reflexão
se renda para morrer sorrindo ao embelezar a inanição

autorretrato a nos soltar em qualquer objeto certo a nos refletir
incertos a repetir nossas juntas para poder juntar uma imagem
a espelhagem pode se partir

a forma das nossas aparências
não é nada reflexivo
são adjacências, nossa síndrome de Narciso

nos torna fúteis e imprecisos na nossa nefasta negação

qualquer superfície lisa pode ser nossa prisão.


(às 16h48, quarta-feira, 08 de abril de 2015, Rafael Belo).

segunda-feira, abril 13, 2015

Narcisistas sem reflexos


por Rafael Belo

Refletimos em qualquer superfície captando nossa luz, mas mesmo com olhos saudáveis, àqueles não expostos diretamente ao sol, à leitura em iluminação ruim, à televisão em ambientes escuros, não coçados e esfregados, nos procuramos por toda parte e não estamos por aí. Esta vontade de nos ver, principalmente por alheios, olhos nos faz enxergar através atravessando a visão pelas superfícies das pessoas e do mundo.

Qualquer objeto que nos mostre chama nossa atenção, prende nosso olhar e leva ao bizarro ensaio dos ângulos e perfis em busca de nós mesmos e gostamos cada vez mais da nossa aparência, não acha? As selfies e os go-pro (os vulgares pau de selfie), estão postando e compartilhando este nosso vício em nós mesmos. Este “eu”, esta “a própria pessoa” é a extensão da nossa desapropriação, da nossa insegurança.

Precisamos dos autoelogios, dos elogios alheios, da aprovação de terceiros, do nosso constante autorretrato da reafirmação de quem somos, somos mesmo? Somos quem, afinal? Um reflexo surreal, a representação do entendimento da luz nos atingindo? Somos apenas estes montes de poses e apelos acumulando pó no canto no centro do espelho?

Nossa imagem trabalhada de autoadmiração procura todos os cantos escuros para repreendê-los e tapá-los para nos tapear profundos quando Narciso somos. Superfícies de superfícies, nosso inferno de vaidades e insensibilidades definha no leito do nosso próprio rio. Somos nosso narcótico, aprofundados apenas de ego sem querer jamais apagar a luz para não nos confrontarmos com nossa escuridão e real reflexo aprisionado sem espelhos para escapar.

Desencavando (resenha de Ordem)



por Rafael Belo

Cavar sempre abre um buraco onde tudo se revela porque nada fica enterrado para sempre. Segredos são surrados por aqueles que sabem... Estes jamais deixam de existir. Mas abrir espaço debaixo para cima pode ser desestimulado e será a ignorância uma benção ou uma maldição? A histeria não seria a ordem da vez se o medo contagiasse?

Este é o enredo de Ordem a continuação da contagiante trilogia Silo de Hugh Howey. Com uma escrita magnética e apreensiva, mais uma vez vamos as profundezas de uma distopia nos cercando dos limites da guerra e paz tanto nos conflitos éticos internos com a razão e os sentimentos quanto dos mundos exteriores em confronto.

Troy, Donald, Ana, Mick, Helen, Degelo e tantas sombras de sombras fazendo do tempo e da rotina um acúmulo de repetições e pretensões do eterno pharmacon que dependendo da dose pode ser veneno ou remédio... O tédio e a loucura estão no mesmo par de olhos condensados nessa narrativa de descobertas na constante vontade de sair da alegoria da caverna.

Uma apaixonante platônica aventura dramática das escolhas feitas e as formas de lidar com elas desencavando a vontade histérica do Legado chegar o quanto antes para descobrirmos como termina está fantástica história nos envolvendo nas profundezas do que podemos nos tornar.

sexta-feira, abril 10, 2015

Injustificável


por Rafael Belo

Clara cerrava calmamente as vistas para o dia clareando subitamente. Bastou um minuto de distração e o trânsito transitava traumaticamente lento porque parado... Bem, fica. Mas, ainda não era tão tarde para quem madruga e apesar de tão cedo as buzinas vazavam frenéticas principalmente das motos sem ética e sem faixa, apenas o bel prazer da liberdade demasiada.

Foi assim que no canto esquerdo da via, praticamente colado à mureta divisora de mãos, que Clara foi claramente presenteada por um motoqueiro porque motociclistas estavam em falta. Apressado e com lotação total, o motoqueiro bateu inusitadamente duas vezes no retrovisor direito do carro precisando lavar de Clara. Tudo, então que clareava, escureceu.

Sem ver e sem ter qualquer motivo, Clara ganhou um prejuízo a poucos metros de uma via expressa. Escureceu o já clareado dia. Clara não via mais nada e olhava impaciente para todo lado. Enlouquecida acelerava, freava e acelerava, girava o volante para ambos os lados, trocava a marcha de primeira para segunda e ponto morto... Inconscientemente ou preventivamente os motoristas abriam caminho indo aos extremos da própria faixa.

Clara não sabia o tamanho do estrago no retrovisor do seu carro, mas estava tão indignada com a atitude do motoqueiro, que nem motoboy era... Bufava, já estava de outra coloração sua branca pele e apesar de raiar mais forte a manhã, voltava a ser escuro para Clara e ela invadiu o espaço aberto para ser touro enfurecido perto da sua vingança, mas sem esperança de capturar ninguém, apenas raiva de não poder fazer nada. Mas, os policiais de trânsito a fizeram encostar logo à frente -enquanto ela pensava onde estavam quando eu precisava - ela foi multada pelo retrovisor quebrado e também seria pelo atrasado injustificável no trabalho.

quinta-feira, abril 09, 2015

frieiras da friagem




Altas temperaturas se abaixam
e deitam expectativas de vidas
ventos fortes arrasam arrastam
param cada coisa significativa

não há partida pelas pulsações que passam
é gelada a manhã sozinha sem saída na falta de espaço

linhas emaranhadas perdem medidas enrolam não traçam
a partida parece primitiva misturada entre sair e partir por pedaços

abraço no vazio do vácuo engarrafado de boas intenções corridas
feridas na despedida delicada dedicada ao despedaço.


(Rafael Belo, às 06h50, quarta-feira, 08 de abril de 2015)

quarta-feira, abril 08, 2015

Sono Bom

por Rafael Belo

O dia estava em sua primeira fase, fim de madrugada. Preto básico rareando, clareando azul alto-mar. Mar aberto chegando, raiando um claro azul logo adiante contrastando com o empoçar do escuro que logo esclarecerá. Escorre ainda o dia anterior empoçando na garoa a se acumular no meio-fio inundando acostamentos como os veículos pela cidade. Luzes brancas, amarelas, azuis, vermelhas incomodando o amanhecer e Lícia não aguentava.

Falava, falava e falava por todo o silêncio disfarçado ao seu redor. Faltava muito ainda para seis horas da manhã e o muito de Lícia eram 15 minutos. Mas era um filme diário exaustivo a fazendo madrugar. Acordar antes de um galo inexistente na tumultuada capital das engrenagens financeiras do Brasil e para quê? Para engarrafar e chegar cedo demais...

Como em um dia de fúria, abandonou o carro ligado em ponto morto e saiu. Não havia calma, ela corria. Corria, corria e corria sem sentir o repuxar dos músculos estressados das pernas, o vai e vem preocupante dos seios, a dor de cabeça aumentando e os carros fechando janelas e abrindo espaços. “Havia espaço então...?!”, ela pensou pouco antes de tropeçar em si mesma e cair...

Caiu, caiu e caiu novamente a mesma queda. O dia não seria nenhum tom de azul. Estava cinzento, nublado sujeito a alagamentos e mais caos na cidade e mais paradeira e empoçamentos... Era frio como friamente foi calculada a manifestação dos caminhoneiros que entregavam colchões Sono Bom... Ao sentir a maciez da queda percebeu quanto sono ruim tinha acumulado e dormiu.

terça-feira, abril 07, 2015

De nós


Não está parado o céu

nublado e abrindo chovendo e sorrindo
ensolarando os resquícios mais sombrios do mar de nuvens
nos esvaindo engarrafados no líquido da impaciência
evaporando a “subexistência” para o fundo da insignificância

nossa tolerância não nos tolera
enumera nossos atos sem significados
festejados ao chegar celebrando o estar
para nos embebedar à sós
e matar a sede inútil de nós


(Rafael Belo, às 17h40, segunda-feira, 06 de abril de 2015).

segunda-feira, abril 06, 2015

Festa de chegar


por Rafael Belo

Não há espaço para pedestres e nem para veículos. Mesmo assim seguimos em direção à individualização dos transportes. Não é evolução cada uma ter um ou mais carros próprios é retrocesso. Estamos no caminho inverso e caminhar passa cada vez mais a ser um risco. Tudo está parado e ao invés de pensar no fluxo, de planejar o próximo passo... Estuda-se a facilidade das pessoas comprarem mais carros e motos.

Para pensar no futuro, no presente precisamos diminuir a quantidade de carro/dia nas ruas. É fundamental melhorar a qualidade do transporte público. Metrôs, trens, ônibus, aliás, nossa malha ferroviária já foi até satisfatória e agora... Bem se não fosse à escassez poderíamos citar a hidroviárias, mas é melhor não... Vamos pensar na poluição sonora. Nas incontáveis vezes em que as agudas buzinas dos motociclistas e motoqueiros pedem passagem.

Também no buzinaço promovido da inutilidade e impaciência iniciada sempre por um e então tudo se transforma e um coro infernal. O som da cidade é uma mistura constante de buzinas, freadas, acelerações e batidas... Os pedestres estão sempre se virando e sempre nos esquecemos que os somos também quando não armados de um veículo qualquer.

Imagine Londres ou Nova York, cidades também intensamente populosas, mas o transporte coletivo funciona e olha só até os representantes do povo inglês e norte-americano utilizam tal condução pela agilidade e qualidade. Se abolíssemos os ônibus e investíssemos o dinheiro, de cada nova frota parada no semáforo, em uma nova linha férrea ou metroviária teríamos qualidade de sono, de alimentação, de tempo e, portanto de vida, ainda mais na era da insignificância onde nossa festa é chegar, “não importa” o caminho.

sexta-feira, abril 03, 2015

Próprio só


por Rafael Belo

A confiança jazia em cacos como vidro de figuração em cena de quebradeira. Um desabafo sem fim de 15 anos de lixo acumulado por ele. Porém, este lixo era ele mesmo. Várias versões vazadas balzaquianas canalizadas pelos detritos que consumia. Severino não reciclava, reutilizava aqueles mesmos realities shows roteirizados anuais e não havia maior aterro sanitário indevido... Bem quase todos os canais de televisão abertos e fechados também era um disfarçado lixão à céu aberto.

Mas, Severino tinha feito uma promessa de Quaresma e, claro, a havia quebrado com um jeitinho “não quebrei não foi só...” bem brasileiro. Não desistia de manter as aparências nem quando corpo da confiança já entrava em decomposição e exalava o odor da morte misturado com as fragrâncias da vida deixando mais impossível respirar. Assim, se equilibrava no limite entra a melhor visão da cidade e a pior, temia por si mesmo.

Se o misturassem a um bambuzal no meio do vendaval mais veloz e tenebroso, da mesma fora não se aproximaria um milímetro sequer desta tremedeira no temor de Severino. Era o contrário da abstinência. Seria uma overdose por falta de palavra mais forte. A impressão não era de vida em Severino. Ele não aparentava uma forma de vida no momento, mas uma intensa vibração até um som de zumbido vinha dele.

Mesmo não sendo invisível parecia ser. Talvez vibrasse em uma emissão de frequência tão veloz no momento que era difícil sintonizar. Centenas de pessoas só faltavam passar por dentro dele sem o perceber, sem o notar de fato. Era uma intuição, um obstáculo apenas. Tonturas o afetavam agora e ele agachado precisava encontrar o verdadeiro chão. Mas nada assombrava a multidão dele. Se ele atirasse feito um norte-americano no colegial seria outra história... Amanhecia preguiçosamente. O sol não queria chegar deste lado. Fantasiado de nuvens e noite bocejava seus raios e cores enquanto Severino pedia a volta da escuridão.

Como confiar comatosamente em alguém? Se juntasse o esquartejado estilhaçado cadáver da autoconfiança, ainda assim faltariam pedaços e a confiança jamais seria completa. Severino olhava as pessoas que não o viam e elas eram extensão dele, eram ele. Seus cacos despedaçados de confiança. Na verdade ali tudo o era. Ele estava só no próprio mundo.

quinta-feira, abril 02, 2015

Crueza



realidades rasgam ritmos
revelam ruídos ricos
ritos retorcidos reascendendo

roupas rudes rangem cruas
porque não serviam mais

a nudez das coisas e das pessoas nuas
estão nas ruas enfrentando o rebelde medo
e as chuvas nem importam mais [sem segredo]

como acreditar nos roxos jornais?
A confiança foi um véu coxo deixado para trás.


(Rafael Belo, às 07h15, quarta-feira, 1º de abril de 2015).

quarta-feira, abril 01, 2015

Planejamento


por Rafael Belo

Ela estava no terraço há tempos. Ninguém a via lá nem a estimulava ou desestimulava a pular. Antes ela olhava da sacada para cima pensando quão alto poderia chegar. Como um felino acuado ela media o espaço caminhando impaciente para um lado e depois voltava. Aliás, quem a via achava ser impaciência, mas não. Genuína enfrentava seu medo.

Não era de altura e Genuína não era suicida. Nem sequer chegará um dia a passar pelos pensamentos dela tal impulso. Ela sabia que a aglomeração de gente gritando gasturamente seu nome era ilusão. Quem prestava atenção? O medo a desafiava e ela aceitava o desafio. Acordou quando todos ainda tentavam esticar a última hora de sono, desligou o celular, passou pelos pontos cegos das câmeras... Já tinha planejado há muito tempo...

A fobia dela já a paralisou outras vezes, aquele pânico e não tinha ninguém lá, justamente isto a fazia ofegante e quase histérica. Não confiava nas companhias. Veja, não é que não confiava nas pessoas... Ela sabia ser incompreendida porque ninguém admitia todo mundo ter o mesmo medo: de estar só. Ficar então era inimaginável.


Popular como era Genuína nunca podia ficar só, mas sempre estava. Não sabia como havia sido empurrada para aquela enxurrada de gente a sugando, bem... Sabia vai... Ali no ponto mais alto do Estado, além da solidão de um paulistano, ela via tudo parado e ela também permaneceria assim agora até as buscas por ela a darem como morta... Do jeitinho que havia planejado, para poder viver e encontrar outros medos.

terça-feira, março 31, 2015

descosturas

cofia o rosto o cabelo as barbas do Tempo
fiando fiéis fios das sombras
tombas a desfiar todas as costuras do firmamento
não há nenhum momento se perdendo

o mundo vai passando por nós
atando frios na barriga e a confiança intriga
lança sua lança a nos transpassar
o medo balança

até quem não dança aprende a dançar
pega o fio da navalha afia a agulha e vai costurar.


(Rafael Belo, às 21h25, segunda-feira, 30 de março de 2015).

segunda-feira, março 30, 2015

Do outro lado


por Rafael Belo

Do outro lado da rua espreita o desconhecido e deste lado também. Às vezes o medo se esconde de nós mesmos, mas não nos deixa. O problema não é ter medo, este não é ruim pois nos deixa alerta, atentos a tudo e pode nos salvar. No entanto, temer outra pessoa é prisão. Já ouvi o grandioso sonho de alguém que mora nas comunidades e é simplesmente não temer outro ser humano apenas por este estar passando na mesma rua.

Esta é uma sensação generalizada mesmo em quem causa medo porque o sente ao extremo também. Criamos uma bolha de ausências e não sabemos mais sair ou permitir vivas presenças. São tantas aparências criadas, imaginadas que podem acabar na mais leve brisa ou com um cumprimento. Há um terrorismo social fantasiado por toda parte, sobretudo midiático.

Assim, o coração constantemente cala acelerado, alterando a respiração e a dilatação das vistas, mas quem em sã consciência confia no desconhecido? Não é tratar diferente ou com deferência, é simplesmente não julgar. Dar oportunidade para conhecer porque tudo nos é desconhecido até o contrário acontecer. Isto só acontece com o tempo.


Com o tempo poderemos deixar de temer outro ser humano pelo uso inverso de suas capacidades. Usaremos o medo como nosso aliado, não o banindo mais entendendo o motivo dele estar ali e deste também ser relacionado com nossos poderes. O que podemos ou não fazer ou melhor o que devemos ou não fazer está na fragilidade da nossa confiança em nós mesmos. E como fazer algo sem realmente confiar?

sexta-feira, março 27, 2015

Perturbação (miniconto)


por Rafael Belo

Mais um ônibus quebrou naquela manhã de rodízio. Mais uma vez a correria. De um ônibus lotado para outro correndo para tentar se encaixar. Mário João era o único sem fones de ouvido procurando outra distração e isolamento, mas mesmo assim ouvia a música dos outros. Uma população espremida que logo não precisaria fingir surdez. Um som no início indecifrável ruía de algum lugar. Se até o “enfonados” ouviam imagina Mário João.

Sempre há formas de piorar um dia ruim... Pareciam raspar uma lixa em um quadro negro sendo fritado em óleo fervente. Todos acordaram, mas apesar de incomodados ninguém manifestou a visível indignação. Porém, riram com um doce sabor frio quando em mais uma freada brusca o sem noção foi arremessado pelo corredor do ônibus... Mas, o infernal ruído continuava queimando os ouvidos.

Mário João imaginou qual seria o caminho da verdade. Viu-se chutando o ruidoso incômodo. Pensou em chutar, quebrar apenas aquele celular e ser ovacionado pelo público obrigado a brincar daquele lego sem graça com assustadora trilha sonora. Afinal ele faria a lei ser cumprida e subiria às graças dos sofridos do busão, mas foi somente verbalmente grosseiro para o júbilo dos inativos. Perdeu a paciência...

Foi pelo caminho do meio assim que o ônibus seguiu acima do limite de velocidade, não queria tesouros. Agiu como um cão perturbado por horríveis sons agudos. Mordeu. Tinha raiva. Preferia o som do motor desregulado e entupido do coletivo abafando até os pensamentos a tudo isso ou aquilo. Depois disso, borboletas o cercaram e ele apenas apreciava silenciosamente o silêncio... Quem sabe poderia finalmente dormir, o caminho até o trabalho é sempre longo.

quinta-feira, março 26, 2015

Marejadas




Onde estão minhas borboletas triste cão?
estes teus tristonhos olhos melancólicos em arrebentação
encontro das águas doces e salinas
me engolem na sina das brumas da manhã

nada nos pertence em consciência sã

somos metal em maresia obstáculo em corredeira [arritmia]
as asas livres das borboletas a quem pertencemos
batendo em demasia [vivedouro]
...Verdadeiros tesouros [fonte] em contínuo estar
no infinito caminho que arrefecemos no horizonte
para onde vamos voar...

(Rafael Belo, às 07h47, terça-feira, 25 de março de 2015).


quarta-feira, março 25, 2015

Borboleteando (miniconto)



por Rafael Belo

Havia fumaça por toda parte. Olhos ardiam, respirações se afogavam e o crepitar também ressoava. Mas, nada queimava. Era tudo perfumaria, puro placebo. Arremedo remendado de quem nada tinha, mas inventava. Caçava lagartas como se já fossem borboletas. Nem uma coisa nem outra estava lá. Uma densa neblina invadia o dia e se espalhava.

Criança de cidade desmatada não conhece nada de perto. É tudo na ponta dos dedos, nas imediações do teclado. Mas aquela inocência tão assassinada por aí, chacinas diárias guardadas em valas rasas para a enchente arrastar e ninguém poder enxergar ou alegar existência, é fuçada... Uma baita de uma esperta. Uma esperteza natural feita para adormecer.

Mas, então um leve roxo topada de pé na quina da porta em um branco leite espumante tirado na hora se transforma em pista móvel de pouso de uma borboleta e pronto. Desperta a inocência adormecida. Daí não adianta ralhar com ela que não vai embora de jeito nenhum, não dorme mais nem com chá de camomila nem com casca de maracujá. O efeito borboleta faz toda a fumaça se dissipar e a neblina rareia até desaparecer.

Sumiu e pronto, o mundo está aí pronto para se maravilhar com as asas da criança se a criança se maravilhar com as asas do mundo também. Uma troca constante focando e desfocando para esta criança ser liberta... Ah, como julgam a inocência e a culpam de ser besta e boba e chata e feia... As crianças sim sabem viver. Curiosas e ousadas. Vê aí essa redescoberta? Tem todas as cores imaginadas em um sorriso incontido em boca passional. Lá vou eu borboletear em outro quintal.


terça-feira, março 24, 2015

Liberta fumaça



Segue o fluxo no luxo da locomoção
não há pontos finais nem paradas estamos em desembalada continuação,
reação aos impulsos rápidos agarrando nossos pulsos, drásticos,
em plena encenação.
Desbota o verde, olha, anota, desloca a poda para a sola
e só pisa no som seguinte,

as borboletas são palpites de fumaça
tragando nossos pulmões em massa
às plenas multidões então passa
molha a chuva ácida, isolando-nos, trazendo a eletricidade estática
para a dispersão...

Borboletas de fumaça em suas coletivas asas são os caminhos da libertação.

(Rafael Belo, às 19h33, 23 de março de 2015, segunda-feira).

segunda-feira, março 23, 2015

Neblina no verde


por Rafael Belo

São muitos caminhos terminando no mesmo lugar, mas ao chegar lá não há ponto final simplesmente porque não podemos parar. Ao chegarmos são tesouros diferentes a nos esperar, a penetrar nos nossos olhos revelando uma melhora sem fim após a conclusão de uma etapa. Estamos constantemente nos lapidando e aprendendo a estender a mão diariamente, não recolhê-la.Há sempre o verde em algum lugar e precisamos podar cada excesso para as mais belas borboletas pousarem.

Sem poses a registrar apenas o entendimento da inexistência de preços, são valores cada gesto partindo de nós, mas, infelizmente, vamos nos vendendo aos poucos. Assinamos contratos sem ler nas entrelinhas e vamos desmatando nosso verde colocando preço em tudo e desvalorizando os valores reais. Realmente sem saber as consequências porque a distância é este caminho de se encher de nada.

É preciso esvaziar. Dissipar a neblina surgindo diariamente de repente no meio de um domingo colorido e ensolarado. Pairando nos nossos olhos, pesando em nossas mãos como planetas inteiros particulares, invadindo nosso corpo para encobrir o coração e se misturar a alma de uma forma a nos confundir. É fria a neblina a nos isolar dos contornos e profundidades em nós mesmos e em cada pessoa e lugar a nos rodear.

Longe desta neblina, somando um passo ou dois, estão todas as borboletas pousando, polinizando e colorindo contornos e conteúdos. Este bando de borboletas ou panapaná só precisa ser avistado para a neblina se afastar pelo efeito do coletivo de suas asas e, quem sabe, sentiremos como se enxergássemos realmente pela primeira vez porque cada um tem seu próprio tesouro no caminho da verdade.

domingo, março 22, 2015

Escalando montanhas (resenha)


por Rafael Belo

Nossa vida é um conto diante de seus inevitáveis sintomas. Na nossa inevitabilidade pensamos gostar de coisas curtas, líquidas, mas talvez seja apenas nossa maneira de lidar com tudo prolongando ou encurtando o mais rápido possível. Por isso, há muitos caminhos para a verdade dentro da retornável caverna de Platão e suas alegorias feitas das nossas sombras e das sombras de tudo que acontece fora de nós. A Verdade É uma Caverna nas Montanhas Negras traz à tona a família, a confiança, a jornada, a sobrevivência e o que está no fim do caminho.

Neil Gaiman conta seu conto levemente com Eddie Campbell nos pintando os traços da aventura com sobras e cor. Adentramos na história imaginando como é perdoar a si mesmo somente e as consequências dos julgamentos sobre nós. Seguimos esta trilha desconhecida pelo caminho escolhido na velocidade empreitada pela nossa consciência e ouvimos quem já esteve lá antes.

Mas a verdade pode não ser a que precisamos e ao sair da caverna onde voltamos a entrar constantemente nossa vida pode estar no fim ou no começo porque tudo é feito de possibilidade, mas é preciso sair das sombras, se afastar da água fresca, deixar o conforto de lado e ser a próxima possibilidade íntegra e próspera que há em ti mesmo. O conto nos leva a diversas parábolas e nos conecta há muitas histórias que já lemos.

É o que esperamos de Gaiman e sua literatura fantástica nos atentar para detalhes grandiosos fundamentais para escalarmos a montanha desconhecida dos nossos sentimentos e do movimento constante do nosso universo sem ser cruel, civilizado ou condescendente é justamente o reflexo criado por nós e àqueles a nossa volta. Vamos explorar esta montanha em nós e desta aventura repleta de consciência e metáforas para chegarmos a um local mais iluminado.
Editora: Intrínseca
páginas : 80
categoria: conto

Publicada incialmente em uma coletânea de contos do autor, A verdade é uma caverna nas Montanhas Negras é uma história fascinante sobre família, a busca por um tesouro e a descoberta de um mundo invisível. Em uma colaboração inédita, os personagens e as paisagens de Gaiman ganham forma com um traçado sombrio e impreciso do artista Eddie Campbell, e o resultado é uma obra que passeia entre o livro ilustrado e o graphic novel, desafiando os limites entre texto e imagem em uma explosão de cor e sombra, memória e arrependimento, vingança e, principalmente, amor.