domingo, agosto 10, 2014

Nos nossos traços e personalidades – por Rafael Belo





Não há como não sentir saudades. É impossível não ter constantes lembranças, ainda mais quando a sagrada palavra pai está em toda parte, é dita sem moderação. Ando mais sonhador e emotivo e não, não é porque temos a data dia dos pais. Nunca fomos de comemorá-la tanto, mas celebrávamos a vida juntos de outras formas no nosso diariamente. Sua alegria e seu bom humor, pai, vivem em mim. Talvez esta seja a eternidade.

Podia ser significativo dizer ser este dia o primeiro sem ti, mas quatro meses e 13 dias são muito mais. Sua preocupação, seu apoio diário, seu auxílio imediato a qualquer momento e suas palavras... Seres humanos não são feitos para serem perfeitos e, obviamente, você não era. Tudo distante do coração para você era bobagem, este era o adjetivo usado por ti sobre esta data.

Mas, passá-la sabendo não poder dar-te um abraço e um beijo ou sequer estar fisicamente ao teu lado, enche meus olhos de lágrimas e o ideal seria estarmos juntos com minhas amadas irmãs e a mãe. Estas coisas de ideais também seriam bobagens na sua boca, também o acho. Ainda passo o dia evitando ir em casa (a casa dos pais) ou ligar para perguntar seja lá o que for.


Os dias não são mais tristes, mas já não são mais tão alegres sem sua presença. Quando choro é de saudade, é por saber da quantidade de ensinamentos que deixou para todos nós escolhidos para viver ao seu lado... São lágrimas de agradecimento sem o equívoco de achar serem dores líquidas. Nós seguimos sem jamais esquecer e não é cada um para um lado, são todos com você, pai, nos nossos traços e nas pinceladas das nossas personalidades. Feliz Dia dos Pais, desejo a ti diariamente.

sexta-feira, agosto 08, 2014

queimando (miniconto) – por Rafael Belo





Aquela imagem estava queimando. A própria paisagem parecia prestes a pegar fogo. Na verdade, Solo queimava em febre. Amanheceu no mesmo lugar onde foi à noite para pensar. Surpreendeu-se ao se despertado por aquela claridade mansa e vagarosa que aos poucos iluminava a sexta-feira. No meio daquela relva parecendo centeio milagroso, ele se afastou de todos para refletir. Solo se sentia contrariado.

Sabe. Ele conversava com todos e nada parecia diferente do esperado, mas ele sentia haver algo errado. Havia alguma coisa escondida nas palavras das pessoas. Um tom diferente. Pareciam querer tirar toda a emoção possível em cada vírgula e outros lugares de respiração. Solo se sentia enganado, mas ao raciocinar bem... Não conseguia encontrar qualquer razão para aqueles sentimentos.

Logo resolveu existir um pouco em outro lugar. Pensou na bela lua cheia parecendo tocar o solo e Solo parecia tocá-la. Há tempos não ia até aquele lugar e foi. Mas, todas estas tentativas vãs de entender o motivo das pessoas dizerem algo tão cheio de garantia de ser o dito mesmo e, no entanto, Solo sentir ser outra coisa. Pensando bem, não faltava sinceridade nas conversas com ninguém. Todos gostavam de dialogar com Solo pela autenticidade e procuravam, ao máximo, darem o mesmo.


Por isso, Solo chegou a conclusão. Ele era o problema. Seus sentidos simplesmente apontavam para uma pane interna. Uma insegurança. Não, não é bem isso. Solo respirou fundo e se deixou maravilhar por aquela paisagem ao leste. Aquele nascer de um astro onde antes morria um satélite. Tudo parou de queimar, pegar fogo e a febre se foi. Solo seguiria, sairia do comodismo para tentar colocar em prática o seu sentir com o seu pensar.

quinta-feira, agosto 07, 2014

sem mistura





sente-se na beirada da razão
sente-se um abismo entre palavra e coração
como explicar um arrepio racionalmente
se não há motivo para explicar o sentido, compreensão
existindo logo depois do músculo da mente

pensar sentado na dúvida e em coisas longe de absolutas
sobressair seu sentido na vã luta da vazão

não há disputa entre sinto e penso quando o reflexo é intuição

em anexo para lá não vamos no impulso, por mais que pulse o pulso
ainda há de se agir sem discurso, não pensando em reconhecimento nem retribuição do curso.


(às 19h38, quarta-feira, 06 de agosto de 2014, Rafael Belo).

quarta-feira, agosto 06, 2014

sentir para lá (miniconto) – por Rafael Belo





Logo ela estava pensando. Refletia a própria existência e dos outros. Será que existiam mesmo? Por uma questão de raciocínio a resposta óbvia já fora dada. Penso, logo existo... Mas, Soraia não era muito destas reflexões. Impulsiva, gostava de impor seus sentimentos aos outros e queria retribuição instantânea.

Era espontânea... Mas os outros... Os outros... Estes eram ingratos. Não conseguiam ser espontâneos com Soraia. Era pressão demais. A exigência de expor os sentimentos. Falar era perigoso, calar também... Tudo gerava dúvidas em Soraia. A demora de expressar seja lá... A fazia sentir-se mal. Ela estava com dores de cabeça intensa.

Também estava de ponta cabeça há horas. Seu sangue latejava. O pneu do carro estourara em uma curva e quando percebeu estava com as quatro rodas para cima. Era tarde quando em um impulso resolveu dar uma volta pela cidade silenciosa. Quem sabe conseguiria silenciar a mente da mesma forma.


Então, era o momento e o lugar exato para pensar no sentido da vida. Soraia estava intacta. Sem dores, sem traumas, mas não sentia nada... Nem vontade de sair dali. Talvez fosse depressão, pensou. Decidiu se mexer e saiu do carro. Ia caminhar a esmo. Quando estava a cem metros do acidente, o cheiro forte de gasolina chegou até ela ao mesmo tempo em que a explosão. O Ka 2014 com extensas prestações agora era uma grande fogueira de ferro e pano retorcido. Ela pensou: - melhor assim, vou sentir em outro lugar. Quero é me divertir.

terça-feira, agosto 05, 2014

logo




nasce o sol refletindo no olhar de espera
ao leste está voltada a visão discreta
reflexo do maravilhar-se no amanhecer
alvorecer da explicação desnecessária
visionárias cores solúveis no roxo azulado alaranjando o final
inicial da mistura do prolongado sentir espalhado
logo existindo no pensar
racionalizar o sentimentalizar para escorrer o tempo
vento semeado na dúvida
súbita no refletir onde tudo se mistura e a pureza se cura.


(às 18h45, segunda-feira, 04 de agosto de 2014, Rafael Belo)

segunda-feira, agosto 04, 2014

Não vamos – por Rafael Belo





Ao entrar em um veículo e controlá-lo é preciso conhecer as regras e leis. Sem exceção. Não é como dormir em um local diferente e deixar para lá uma morte certa. Isto aconteceu no Sul do Maranhão, na madrugada do dia 3 de agosto de 2014. Quando um monomotor caiu no quarto de um pré-adolescente de 11 anos que insistiu em dormir com os pais na noite anterior.  Todos os integrantes do avião morreram, inclusive a idosa, de 87 anos, que estava sendo transportada para um hospital. Não temos controle sobre isso. Mas podemos refletir.

Refletir sobre tudo. Nem tudo é solúvel e precisa de explicação. Precisamos pensar e sentir nós mesmos e o nosso redor, claramente não são a mesma coisa. É preciso equilibrar os dois. Temos de dar atenção aos sentidos e pensar para ter o mais próximo de uma garantia 100% de fazer sentido. Racionalizar tudo e sentimentalizar tudo é estupidez. Surgiriam infinitas explicações para o garoto não ter morrido na fatalidade relatada no parágrafo acima. Apareciam mil teorias sobre a queda do avião e morte de das duas famílias lá dentro.

É como esperar para ver o nascer do sol. Qual o sentido? Senti-lo? Deixar-se maravilhar? É tudo uma questão de existência. O famoso penso, logo existo do filósofo e matemático francês Rene Descartes, criado por ele entre 1616 e 1619. Quando uma fatalidade assim ocorre logo apelamos para o sentimento. Há um reflexo daquelas mortes. Aprendemos a temê-la e ao mesmo tempo a ter fé. Lamentamos as mortes e dizemos que o garoto não morreu porque não era a hora dele.


Usamos as mesmas frases quando alguém morre jovem. Porque queremos racionalizar a fé e o sentimento. Ambos atos abstratos tornados concretos por nosso fervor e crença. Assim como a abstração do pensamento. Se acreditamos mesmo na frase de Descartes e a propagamos podemos refletir nossa constante contradição já que a essência do eu penso nesta filosofia que adotamos é duvidar, reflexo da capacidade de pensar. Você pensar é igual a você ter dúvidas (neste contexto). Mas, não vamos racionalizar e sentimentalizar tudo.

sexta-feira, agosto 01, 2014

E a visão se foi... (miniconto) – por Rafael Belo





Ele via a cegueira em todos e se bobear até os cegos viam. O problema é que o escuro já o enchia de medo e fora isso ele estava vazio. Realmente vivia fora de si. Esbravejava a qualquer limiar de tensão. Chegava a ficar rouco e tossia, o que o deixava ainda mais raivoso. Como um cão acuado. Gean estava perdendo a visão.

Não havia médico capaz de encontrar a razão. Enquanto isso, seus olhos esbranquiçavam. Só vultos passavam por todo lado. Gean se assustava ainda mais. Naquele dia ele havia parado o carro em um lugar pouco movimentado. Não tinha planejado nada, muito menos ficar largado por ali até a noite chegar. Mas, ela chegou revelando a cegueira de todos e trazendo a dele.

Antes das luzes de seus olhos se juntarem a tantas pessoas escolhendo não ver. Ele chorou. Suas lágrimas pareciam se misturar com a chuva escorrendo na janela. Tudo ao alcance da visão de Gen eram faróis perdidos, vultos correndo e as cores fazendo de prismas toda aquela água doce por fora e salgada por dentro.


Poderia ser uma água salobra se realmente se misturassem, mas havia a janela entre elas. A luz do poste se multiplicava. Parecia criar uma lua própria para Gean enquanto as estrelas caiam naquele último céu visto por ele. Seu último desejo para seus olhos, era que quando fechassem e o levassem para a escuridão deixassem todos os detalhes à vista, até o resto do corpo ir a prazo. Que mesmo ele estando cego que o mundo parasse de ensaiar a cegueira. E a visão se foi...

quinta-feira, julho 31, 2014

dimensões



 gotas e estrelas se misturam
brilham evaporam, constroem um coração
convivem no vidro escorrido
transformam a distância do céu no toque da mão

cada fragmento junto consumido
cria no silêncio o ritmo, junção
o Amor esquenta na ponta do dedo resolvido
a despertar cada adormecido, quebra barreiras da dimensão

simbolizam todo o universo na chuva caindo
cadência concreta, conexão.


(às 23h, quarta-feira, 30 de julho de 2014, Rafael Belo)


quarta-feira, julho 30, 2014

segredo (miniconto) – por Rafael Belo





Não havia qualquer claridade lá fora. Apenas faróis nervosos cruzando as ruas molhadas. De pessoas existiam sombras passando rápidas tentando não se molhar na garoa gélida e persistente como o inverno soprando suave, mas denso. Estava frio como sair de uma sauna direto para graus negativos em plena noite. Gi Genérica estava com medo e tremia, mas o tremor era frio.

Sua visão estava turva. As distâncias se confundiam. Longe era perto, perto era longe. Gi se confundida e claro estava ficando tonta com tanta variação. Encostou a cabeça no vidro do carro e o embaçou com sua respiração quente.  Não sabia exatamente o que enxergava, então fechava os olhos e balançava a cabeça.

Quando o poste lá fora se apagou, Gi bateu a cabeça com tanta força a ponto de garantir a presença de todos os astros do universo e as estrelas já inexistentes, mesmo sendo luz artificial e gotas de chuva. Ela se deu conta da improbabilidade da situação. Como podia enxergar algo com a luz do poste apagada? Seu medo aumentou, mas não pensou na luz própria de globos celestes.


Todos os postes da rua começaram a oscilar e junto com os cruzados faróis entrecortados dos carros velozes, mais sombras corriam. Gi acordou assustada com um vulto tentando abrir a porta do carro. Ela escondia um segredo que seria bobo, mas escondê-lo era o problema. Então simplesmente gritou e saiu ensandecida pelas ruas deixando a vozinha trancada para fora do próprio carro.

terça-feira, julho 29, 2014

alimentando a alma




gotas caem do céu, estrelas permanecem
nossos olhares brilham e o todo aquecem
esquecem o tempo ao depositar a visão
no avesso daquele seu cotidiano, então
há a permissão da observação de outro ser humano
pode ser o vidro molhado refletido, outros planos
o universo estrelado invertido, conversando
chegando ao longe da longevidade da convivência
assistência das pequenas coisas imensuráveis
grandes coisas ínfimas, pequenas.

(às 19h33, 28 de julho de 2014, segunda-feira, Rafael Belo)


segunda-feira, julho 28, 2014

Vamos brilhar, por favor – por Rafael Belo





Você já parou simplesmente para parar? Assim sem motivo, razão, circunstância, apenas para perceber o tamanho imensurável de coisas pequenas e o quanto é ínfimo coisas imensas? Depositar um olhar do avesso daquele seu cotidiano, permitir ver pela visão de outro ser humano, mudar os planos?

É como olhar as estrelas da cidade iluminada e ver um ou outra em destaque, mas saber com certeza da existência de muito mais. Há uma longevidade muito distante do imediatismo imposto por nós mesmos hoje por convicção ou pelo constante comportamento de manada. Somos tantos e só vamos longe quando não sozinhos e quando aprendemos a conviver.

Não é tolerar, aceitar e sim conviver. Tratar o outro como igual. Tolerar é algo que fazemos para manter as aparências. É hipócrita. Aceitar? Como em eu aceito você como amigo ou eu aceito quem você é? Acredito que apesar de julgados o tempo todo não vivemos em um tribunal e se quiser ter um amanhã melhor que hoje precisamos da convivência.


Convivência e brilhar junto com aquelas estrelas que se destacam mesmo com tanta luz da cidade. Viveremos mais se trabalhar a ansiedade e descobrirmos a melhor maneira de nos tratarmos nos dois sentidos. Como nos dirigirmos uns aos outros e a nós mesmos. Afinal, viver contrariado e contrariando é apagar a estrela brilhando em nós mesmos. Vamos brilhar, por favor.

sexta-feira, julho 25, 2014

janela intensa (miniconto) – por Rafael Belo







Para quê portas e vidros nas janelas? Nem teto era preciso. O acesso a paisagem proporcionava mais conforto e uma alegria inexplicável em Marco Mil. Cada cor chamava um amigo a sua mente e ele viajava na lembrança. Nunca perdera contato com nenhum, às vezes acontecia da distância e o tempo se intrometerem, mas bastava se encontrarem e ambas as relatividades jamais tinham existido.

Era encontrá-los e as afinidades se afloravam. Nada parecia ter mudado da última conversa e ela continuava do mesmo ponto. Mas, Marco estava mais ausente no último ano. Pouco revelou de si para seus amigos e entre muito menos em contato. Todos desconfiaram e começaram a combinar uma surpresa coletiva.

Olhando pela janela e sentindo aquela inestimável força do que via e era visto, Marco não percebeu quando dormiu. Estava tão cansado de todas as escolhas erradas e as consequências desastrosas que o deixaram sozinho e sem condições de terminar seu único bem. Estava na casa própria há alguns dias e já precisava tomar banho. Passou cada dia da última semana em claro. Não seria fácil de acordar. Seus amigos haviam descoberto tudo e chegaram preparados para erguê-lo.


Quando acordou o mutirão de amigos tinha terminado a casa e ao redor de Mil estavam todos eles esgotados. Dormiam todos profundamente. Passaram 24 horas aceleradas. Até pintaram a casa. Mas, também não eram todas as pessoas que tinham tantos amigos e pelo menos 20 na área da construção. Cada um deles era parte da janela de Marco e ele nunca deixava de olhar por ela. Agora não parava de olhar para eles e ter uma alegria ainda mais intensa.

quinta-feira, julho 24, 2014

verso amigo





os melhores amigos do poeta são os versos
que se vão ainda sãos sem jamais voltar a pertencer ao criador
é da criatura inspirador e cada figura humana se torna suas rimas,
nem melhores nem piores, são autoestima

o riso poético da alma perceptiva e o sintético detalhe da vida
ativa em cada vírgula e reticência em busca de um ponto final
sinal da interpretação original apropriada pelas amizades rebuscadas
na sustentação guardada pelo equilíbrio entre a solidão requisitada e a confirmada presença

antigo abrigo da essência dos passos seguintes
amigos ouvintes, ombros e mãos, poesia de todas as situações.


(às 20h27, quarta-feira, 23 de julho de 2014, Rafael Belo)

quarta-feira, julho 23, 2014

Intervenção (miniconto) – Rafael Belo









O entardecer trazia a noite para o chão e as cores para o céu. Por enquanto tudo ainda estava azul. Mas, Madalena iria borrar toda a maquiagem do dia. Escorreriam marcas pretas por toda sua face e incontrolavelmente isto seria controlado por todo trajeto. Mesmo com tantos amigos e família ela não cederia.

Madalena queria o Reino indo até ela, ela não iria ao Reino. Então, não havia paz. Ela mancava por todo seu calvário porque não tirava o salto por nada. No auge dos seus 16 anos, tinha corpo de 30, mas sua mentalidade prevalecia lá pelos 12 e, às vezes, empacava pela incansável birra dos cincos anos. Saltitante e irritante idade. O problema é que ela e metade da humanidade eram assim.

Aliás, ela sofria até em casa. Não queria ouvir ninguém e dolorosamente acusava os mais íntimos amigos de traidores e distantes. Madalena misturava suas realidades com sua mente confusa e soltava injustiças através dos meios disponíveis. No momento se sentia rejeitada e dores no coração. Estas a faziam esquecer suas incuráveis dores crônicas.


Madalena sofria de fibromialgia aguda e dava soluços agudos no meio de suas densas lágrimas. Sua expressão era grave e seus amigos tentavam sustentar aquele fio de vida tenso no qual ela caminhava. Madalena não esperava tantas conversas sobre ela. Só soube durante a intervenção. Cada dia um amigo passava o dia com ela e lembrava de quem era Madalena. Juntos lembravam do valor, da nobreza e da beleza que a amizade pinta a vida.

terça-feira, julho 22, 2014

fim do infinito






vestir ares de importância despe a intolerância das dores de cabeça, adormeça e alvoreça onde menos é mais da beira do cais até o fim do infinito/ o tremular de um agito, no mito da casualidade como se aparência e intuição fossem certeza, leviandade, perde-se a leveza de não ser leitor de mentes nem dono de especulações, feições, inteiro se fazendo metade, esvai-se a essência da amizade e morre um imaginado amigo, amigos imaginários se vão pelos vãos do que não é verdade, Felicidade é diária no diário da simplicidade, repleta de detalhes, entalhes à mão onde se faz preenchimento no coração da cavidade e a paz invade.


(às 12h08, segunda-feira, 21 de julho de 2014, Rafael Belo).

segunda-feira, julho 21, 2014

Amizade e guerra – por Rafael Belo






Se não for nobre nem valioso não é amizade. Aliás, quem sobrevive em sã consciência sem amigos? Ontem (20), foi Dia do Amigo curiosamente a data é referente ao dia em que o homem pisou na lua neste mesmo dia em 1969.  Nosso Hermano argentino, o médico Enrique Ernesto Febbraro, achou tão imensa a chegada do homem à lua que disse:  "um feito que demonstra que se o homem se unir com seus semelhantes, não há objetivos impossíveis”. Enrique enviou 4 mil cartas para instituir a data.

Ele queria reforçar que quem tem amigos alcança o impossível. Por isso, nunca é demais celebrar o sentimento de amizade. Outra data comemorada pertinho. O Dia da Amizade surgiu dia 30 de setembro de 1958, pelo também médico e hermano, o paraguaio Ramón Artemio Bracho. Na época ele realizou a Cruzada Mundial da Amizade. O intuito era valorizar e destacar este nobre sentimento e assim disseminar a paz.

Promover a paz e a amizade é elevar a alma, dar continuidade e mais significado/significância a vida. É saber sempre ter com quem contar e apesar de tudo viver. Por isso dados de mortes no Brasil assustam. Ainda mais quando vêm acompanhados das palavras família e amigos. São cerca de 150 pessoas assassinadas por dia, de acordo com dados da ONU (Organização das Nações Unidas). No ano passado o ministro da Cidades,  Aguinaldo Ribeiro, destacou que 140 pessoas morrem por dia no trânsito.

Somando os dados são cerca de 300 mortes diárias no Brasil. Enquanto um recorte da guerra entre Palestina e Israel dá um balanço de cerca de 350 pessoas mortas em 13 dias. Lá israelenses e árabes estão em confronto há milênios, mas desde 1867 quando o Sionismo, o ideal judaico do retorno a terra dos seus antepassados, junto com a iniciativa britânica chamada de Declaração de Balfour, deram ao povo judeu direitos próprios de um povo, então eles foram em busca da terra prometida.


A Cisjordânia e a Faixa do Gaza são reivindicados por antigas questões históricas, culturais e religiosas de ambos os povos. Complexa demais para um recorte telejornalístico global. Braco e Febbraro querem o que todos nós queremos ou deveríamos querer: Estimular a paz e a amizade entre seres humanos, entre irmãos, se não por princípios pela religião, pela qualidade da/de vida e da alma e pela sobrevivência do mundo. Seriam muito mais simples e nobres como juntar os furos de um tijolo para dar moradia a quem precisa e a própria fortaleza.

sexta-feira, julho 18, 2014

invasão (miniconto) – por Rafael Belo








Por mais que o procurassem era preciso se perder nos olhos dele para seguir os rastros das formigas e se esgueirar pela rachadura na sua parede externa. Fariseu Fenda vivia em vários lugares ao mesmo tempo e se sentia cotidiano demais. Preso como se seu diariamente precisasse descer e subir todos os degraus do mundo, seu mundo, aliás mundo bem dele.

Sua mente era sua janela e ele amava estar ali. Não só debruçado, mas mudando de posição. Fenda sentava e balançava os pés, porém quando pulava se descobria cada vez mais. Como se houvesse vários Fariseus caindo em uma Fenda. Pareciam seus neurônios aquelas formigas conversando na parede criando o odor da informação e textos para expressão.

Ele sabia do medo das pessoas de dizerem algo e serem julgados pelo dito, escreverem algo e serem julgados pelo escrito. Fariseu Fenda havia aberto um buraco e enterrado seu medo disto. Ele olhava nos olhos das pessoas e deixava que elas se perdessem em seus olhar, pois assim ele as encontraria. Decidiu trazer suas janela para fora.


Quando percebeu que não morreria, tentou ir o mais distante possível e hoje ninguém o alcança mais. Pulou sua janela e a trouxe para fora passando por ela constantemente. Ao mesmo tempo a janela era a mesma e era diferente. Um velho mundo com o novo dele. Fariseu Fenda criava seu espaço e todos percebiam que o espaço dele invadia todos os limites e eles eram invadidos também. E aquela fenda nele era um formigueiro ampliando seus ninhos.

quinta-feira, julho 17, 2014

sem foco







abaixo da terra, abria a janela
para a imagem desolada pintada no espelho
a um toque, a um dobrar dos joelhos
o rasgar da razão a luz de uma vela

reflexos e movimentos anulados pelo cerebelo
destruindo o equilíbrio da tela
confundido todo o não escrito enredo
enfiando o cotidiano atravessado na goela

pequena flor gela toda a delicadeza em recorte
da falsa morte revela medo e desfoque.


(às 23h12, quarta-feira, 16 de julho de 2014, Rafael Belo)

quarta-feira, julho 16, 2014

declamará (miniconto) – por Rafael Belo









Ela acordava todo dia da mesma forma e inconvenientemente com o mesmo pensamento. Só não era de todo inconveniente porque... Bem ela não se lembrava. Amélia Jéssica passava pelas mesmas coisas diariamente, a diferença para ela era sempre ser novidade. Instintivamente ela não usava verbos no passado ou no futuro, às vezes nem no presente.

Podia sorrir comumente e estava presente. Naquele momento Amélia Jéssica nem conseguiria ser outra. Era ela, era agora. Fazia suas higienes, se alimentava, acessa o mundo virtual, confeccionava seu trabalho ali mesmo e o envia a quantos veículos pedissem. Repetia os dois primeiros invertendo as ordens e dormia. Ah, adorava passar seus momentos de folga viajando por meio daquela janela.

Não importava o tempo emprestado a ela pela janela. Amélia Jéssica conseguia sempre enxergar o sol. Podia ser inverno, outono, primavera e Amélia ainda assim enxergava o verão em tudo, por mais que preferisse o silêncio e a profundidade do inverno. Não o inverno brasileiro só de frio, quando o era. O europeu com muita neve, por mais que nunca tivesse passado por ele ou ela.


Amélia estava em coma há quase três décadas e nestes 30 anos quem ainda a conhecia morreu, quem era da família a esqueceu. Amigos e familiares ela fazia no cotidiano permitido pela sua memória. Era como viver em um Silo de centenas de compartimentos separados por profundidade de andar. Enterrada em si mesmo era feliz e apesar de acordar todo dia sorrindo ela não estava presente no próprio futuro.


terça-feira, julho 15, 2014

famintos




se foi a caverna ficou sua enorme sombra
na nossa face contrariada imitando tromba
nossas raízes longas, só nos mantêm enterrados
soterrados de regras na destruição do legado

desolado deserto dividido na nossa confinação
presos de dia e soltos à noite, proteção
sussurrando com os olhos na janela

vendo o dia começar e terminar, tagarela
repetindo as sombras da caverna, imitação
cães caçados, instinto faminto, aceitação,
sem freio na banguela, simulação.


(às 18h18, segunda-feira, Rafael Belo, 14 de julho de 2014).

segunda-feira, julho 14, 2014

Embaçando o vidro da verdade (resenha do livro Silo) - por Rafael Belo



A maior caverna do mundo é uma sombra do passado. Estamos confinados a uma paisagem desolada, desértica e mortal. Somos um legado ignorante da destruição causada por nós mesmos. Não podemos sair, não podemos respirar, mas estamos acostumados e isto tudo parece o paraíso, mesmo se estivermos enterrados. Filosoficamente até poderia ser assim nossa vida hoje.

Mas esta é a vida no Silo. Estamos armazenados na ignorância e nos tornamos níveis enterrados na terra. Não questionamos, apenas exercemos nosso trabalho, comemos, dormimos e seguimos as regras. Mas, há Juliette e Lukas e antes deles a prefeita Jahns, o delegado Marnes, o xerife Holston e Allison em 144 andares subterrâneos de aceitação ou limpeza.

O livro é voraz e a Intrínseca acerta mais uma vez ao transformar o fenômeno dos e-books em físico. Hugh Howey dá velocidade a trama e vamos nos corroendo ao mesmo tempo em que o fôlego se perde em algum andar a exercitar nosso cérebro descendo e subindo as escadas. Vamos no ritmo acelerando e em rápida evolução à espera dos outros dois. Sim. É uma trilogia.

Aceitar o feijão com arroz diário, hastear o ato político de virar as costas à política e intuir que a vida é assim, as pessoas não mudam... Dá o aval, nossa assinatura para que sejamos “manipulados”, que tomem decisões por nós. É assim que acabamos enterrados repetindo nossas ações diariamente seguindo regras que nem sabemos porque existem e de repente estamos mortos. É este o mundo distópico imaginado por Howey, mas está embaçando o vidro da verdade.


Silo

Em uma paisagem destruída e hostil, em um futuro ao qual poucos tiveram o azar de sobreviver, uma comunidade resiste, confinada em um gigantesco silo subterrâneo.
Lá dentro, mulheres e homens vivem enclausurados, sob regulamentos estritos, cercados por segredos e mentiras.
Para continuar ali, eles precisam seguir as regras, mas há quem se recuse a fazer isso.

Essas pessoas são as que ousam sonhar e ter esperança, e que contagiam os outros com seu otimismo.

sexta-feira, julho 11, 2014

Rachaduras (miniconto) – por Rafael Belo










Não reconhecia nada e estava muito quente. Tudo se movimentava a girar e girava. Ele tinha certeza que aquele João-de-Barro o observava com um brilho de reconhecimento no olhar. Mas, espera como foi parar ali? ... Algo a ver com rachaduras. Não! Silvio Silva se levantou de imediato olhando obsessivamente ao redor.

O pássaro nem se mexeu. O encarava sobre sua asa esquerda fechada. Seu olhar atravessava o mato alto, mas amassado. Local exato onde Silvio despertou. Ele percebeu a força do olhar do pássaro não era só reconhecimento, havia mais naquele olhar do que ele podia encarar. Era uma ação prestes a acontecer. Uma reação...

Silvio vasculhava os escombros e as aves o vasculhavam. Os escombros do lugar que um dia foi seu lar, os destroços que um dia o foram. As aves iam se amontoando como se o barro ganhasse vida. Havia chovido no dia anterior não muito, mas o suficiente para molhar o chão batido e o revirar. Agora eram milhares de Joãos o reconhecendo e culpando do mesmo jeito, com o mesmo olhar.


Ouviu uma revoada e seu coração pareceu correr. Temia algo que só seu íntimo sabia. Silvio também estava repleto de rachaduras. A cada bater de asas ele se sentia rachar. A fissura vinha do chão e parecia o atravessar até ganhar o vazio. Ele não iria escapar. Quando todos os pássaros bateram as asas, Silvio tinha certeza que já não era nada. Milhares de João-de-Barro o levavam no bico de volta para o barro, de volta para casa.

quinta-feira, julho 10, 2014

Semblante













olhos vidrados no tempo virado na cadeira
corpo torcido nunca ereto ao estar constantemente sentado
coluna retorcida sem se equilibrar a um palmo da fronteira
imagens clonadas, palavras repetidas em bocados

morte e vida equilibradas por um distúrbio
absurdos marcados no interno subúrbio

enterrado na nossa superfície mais rasa
no desequilíbrio confundindo trabalho e casa

enrijecida no cadavérico estado ambulante
antes e depois são agora, o pó aviltante de recuos adiante.


(Às 23h13, Rafael Belo, quarta-feira, 09 de julho de 2014)

quarta-feira, julho 09, 2014

Jornada (miniconto) – por Rafael Belo







Havia tantos ângulos para olhar e ela não queria esquecer nenhum. Imaginava-se enquadrando as imagens. Os indicadores e polegares estendidos formando 90° em quadrados e retângulos. Ora a mão direita em cima, ora a mão esquerda... Depois de um tempo visualizava fotos em qualquer imagem. Pessoas, paisagem tudo dava vontade de registrar e Eliana Capta já nem erguia mais as mãos, mas se perdia em seu olhar fixo às vezes longe, outras perto torcendo e se retorcendo em seus subterrâneos.

Já tentou repetidas vezes a mesma cena e cada imagem era outra sendo repetição. Tantos detalhes, tantas palavras... A vida de Eliana era ela e a máquina digital. Três vezes quase foi enterrada viva. Eliana tinha uma rara catalepsia patológica. Seu corpo poderia ficar dias com um funcionamento tão mínimo e rijo, que nem a morte entrava em um estado cadavérico tão bom.

Se a morte não fazia tão bem, Eliana era a melhor, mas só trabalhava quando e como queria. Gostava de torcer com o olhar para a foto ser a melhor da vida dela e torcia assim por cada uma. Conseguia que saíssem como imaginava, como enxergava de seus subterrâneos. Eliana se misturava tanto aos locais que perdia a identidade, ela reconhecia a imagem a imagem a reconhecia.


Mas ninguém reconhecia a raridade de usa rara doença. Em sua quarta e última crise de catalepsia, a denominação judaica de Eliana ajudaria a ela alcançar o paraíso, quem sabe nas etapas até lá registraria o impossível. Ela estava nas reservas ambientais quando em meio a um grupo teve a crise e o Judaísmo não permite autopsia. Eliana foi direto para o inferno o que significa que seu corpo voltaria ao pó e sua alma sofreria e alcançaria o céu quando fosse o tempo. Enquanto isso, registraria uma nova jornada.

terça-feira, julho 08, 2014

Subterrâneo











calmamente esfria o indigente
cascas rachadas de corpos
pele sobre pele de músculos inteligentes
estremecendo incendiários sarcófagos

notícias vazias socialmente
sinceramente torcendo antigos exóticos

resfriados automedicados sutilmente

por vagos distorcidos propósitos
no liquidificador resolvido no ouvido sem identidade

criando sentimentos abismos depósitos, sentimentalidades, humanos distópicos.


(Às 22h04, Rafael Belo, segunda-feira, 07 de julho de 2014)