segunda-feira, junho 19, 2017

Causas perdidas


por Rafael Belo

Doutrinados ao combate, ao enfrentamento, a disputa de espaço, a vencer o outro, a elevar uma crença em detrimento de outra a morte se espalha, o caos impera e tudo se repete como em outra era. A racionalização, ou o iluminismo grego, tinha mais camadas entre seus mitos e crenças bem além do registrado na história. O místico, o astrológico, o ilógico, o espiritual e o imaterial se misturavam no cotidiano. Havia - como hoje - perseguições político-religiosas terminando com toda uma população bebendo cicuta voluntariamente.

Por vontade própria bebemos outros venenos. Atropelamos, emboscamos, atiramos... Armamos-nos de todas as armas erradas. Procuramos um sentido para tudo, mas não tem sentido esta cegueira toda ao nosso redor e em nós. Estamos nos desmembrando paladinos da justiça, justiceiros da verdade, heróis de tantas desimportâncias acumulando pó e pesos nos curvando para o chão em uma reverência constante ao vazio. Vivemos de causas perdidas. Queremos resgatar o outro antes de nós mesmos. Queremos revidar a violência com violência criando um ciclo de justificativas e ódios sem fim. Para, enfim, continuar com dor em noites sem dormir e se alimentar sem sabor.

Perdemos tempo e vidas querendo corrigir o incorrigível. O passado é imutável. Acabou. Não deveríamos descobrir nosso papel no mundo? Descobrir como mudar algo, e nós mesmos, ao invés de tentar forçar situações, relações e mudanças de opinião? Não há respeito. Há apenas a vontade de não querer causar um rebuliço público ou, melhor escrevendo, uma exposição desastrosa nas mídias digitais. A intolerância se esconde por toda parte. Talvez por isto as conversas francas tenham bebido cicuta há tanto tempo... Esta pode ser a causa de tanta esquizofrenia comportamental desta multidão confusa difusa nas vontades instantâneas: só é possível realizar uma vez. Depois reina a paranoia.


Precisamos evoluir nosso espírito infinitamente maior. Nosso corpo não é nada além de um caiaque furado nas correntes, correntezas e cachoeiras da vida. As ideias gregas tão cultuadas desde o pré-socrático Anaxágoras de Clazômenas – meio milênio antes de Cristo – possuem tanto contexto de causas e consequências a ponto de ser impossível endossar qualquer tipo de violência vinculadas a religião ou filosofia, principalmente, o revide como solução. Ao invés de revidar e plagiar, o aprender precisa vir primeiro junto a capacidade de prever as consequências dos nossos atos para não continuarmos etiquetados como causas perdidas.

2 comentários:

Viviam Fernandes disse...

"Nosso corpo não é nada além de um caiaque furado nas correntes, correntezas e cachoeiras da vida."

Perfeito!

Rafael Belo disse...

Obrigado Vi! <3